Todas essas histórias, que comprovam o estreito laço que existe entre a cachaça e a cultura brasileira, foram contadas em outro ícone brasileiro: o carnaval. No primeiro desfile do milênio, a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro, foi campeã com o enredo que falava justamente da trajetória da cachaça.

Uma homenagem não apenas à bebida, mas também às pessoas que cultivam ou cultivaram uma relação estreita com a cultura do Brasil e, consequentemente, com a cachaça.

Artistas e intelectuais como Jorge Amado e Aluísio de Azevedo, entre tantos outros, destacaram em suas obras a importância da cachaça para o povo brasileiro. Inúmeras citações na literatura e na música comprovam esta importância. Pode-se dizer que ela é a cultura engarrafada do Brasil.


Fonte: www.abrabe.org.br


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Se você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão...

Pode me faltar tudo na vida
Arroz, feijão e pão
Pode me faltar manteiga
Que tudo isso não faz falta não

Pode me faltar o amor
Isso eu até acho graça
Só não quero que me falte
A danada da cachaça

(Marchinha de carnaval composta
na década de 50)



Com a marvada pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dou meu taio
Pego no copo e dali não saio
Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio
Só pra carregá é que eu dou trabaio, oi lá

(Clássico do cancioneiro popular brasileiro, de autoria desconhecida)

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  Samba Enredo da Imperatriz Leopoldinense - Campeã do Carnaval de 2001

“Cana-caiana, cana-roxa, cana fita, cana preta, amarela, Pernambuco... Quero vê descê o suco, na pancada do Ganza”
Autores: Marquinho Lessa, Guga e Tuninho Professor

Cana-caiana,
A cultura que o árabe propagou.
Apesar dos cruzados plantarem,
A cana na Europa não vingou.
Mas conta a história que, em Veneza,
O açúcar foi pra mesa da nobreza.
Virou negócio no Brasil, trazida de além-mar.
E, nesta terra, o que se planta dá.
Gira o engenho pra sinhô, Bahia faz girar.
E, em Pernambuco, o escravo vai cantar.
(quero vê)

Quero vê descê o suco até melá
Na pancada doce do ganzá. BIS

Pinga...
Olha a cana virando aguardente.
No mercado do ouro atraente,
Paraty espalhou a bebida.
Pra garimpar, birita tem.
Na Inconfidência foi preferida.
Pra festejar, o que é que tem?
Tem Carlos Cachaça, não leve a mal.
Taí verde-e-rosa em meu Carnaval.

(vem provar minha caçacha)

Vem provar minha cachaça, amor.
Ô, ô, ô, ô
O sabor é verde-e-branco. BIS
Passa a régua e dá pro santo,
Que a Imperatriz chegou.


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O Mulato,
Aluísio de Azevedo


"Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho, entusiasmado, o ar trágico, mostrava com o braço erguido um cálice de cachaça, ou, comicamente acocorado esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando chegava a ocasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes, gritando, e afinal batia o martelo com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.

Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabeladas, gotejando suor por debaixo do chapéu de pelo; risinhos de proteção, bocas sem bigode dilatadas pelo calor, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo."

"Adorava os perfumes ativos, as jóias e as cores vivas, para ele, nada havia, porém, como um passeio ao sitio embarcado, à fresca da madrugada, bebericando o seu trago de cachaça e pitando o seu fumo do Codó."

"Frei Lamparinas, efetivamente, chegava para cantar a ladainha. Acompanhavam-no quatro sujeitos de ar farandulesco; caras avermelhadas pela cachaça, cabeleiras à nazarena, paletós insuficientes, olhares cansados; um todo cheio de insônia e movimentos reservados de quem não conhece o dono da casa em que se apresenta"


Tenda dos Milagres,
Jorge Amado


"Se acabou o livro, o amalá e a cachaça, a viagem de bonde e de imprevistos; o velho conhecia cada recanto do caminho, casas e árvores eram-lhe familiares, de uma familiaridade secular, pois sabia de agora e de antes, de quem era, o filho e o pai, o pai do pai e o pai do avô e com quem se misturaram."


Bahia de Todos os Santos,
Jorge Amado


"A Festa de Santa Bárbara , Iansã dos negros, é realizada no Mercado da baixa dos Sapateiros. Muita cachaça, um grande torneio de capoeiras. Inicia-se com uma missa em honra da santa, voltando depois todos os assistentes e mais os que aderem para o mercado em ruidosa procissão."


Os Velhos Marinheiros,
Jorge Amado


"Quando se encontrava, convidado de honra, na popa de um saveiro, ante uma peixada sensacional, as panelas de barro lançado olorosa fumaça, a garrafa de cachaça passando de mão em mão, havia sempre um instante, quando os violões começavam a ser penteados, em que seus instintos marítimos despertavam. Punha-se de pé, o corpo pingando, dava-lhe a cachaça aquele vacilante equilíbrio dos homens do mar , declarava sua condição de "velho marinheiro".

 

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