voltar 28.set.2004

Cachaça: a marvada conquista o Brasil
Bruno Ribeiro, do Cumbuca

A cachaça artesanal, bebida genuinamente brasileira, está na moda. Produzida desde o Século 16, atualmente ela perde apenas para a cerveja no ranking das bebidas mais consumidas no país. Depois de séculos de discriminação, a "marvada", enfim, é reconhecida como um bom destilado pela classe média e alta brasileira, nas quais o seu consumo vem aumentando de forma significativa.

"O mercado para a cachaça está em ascensão, tanto dentro quanto fora do Brasil", afirma Wendel Alves da Silva, proprietário da cachaçaria Empório São Joaquim, uma das casas localizadas na região de Campinas onde a mais brasileira das bebidas já responde por 60% do faturamento mensal.

Para Wendel, a recente descoberta da cachaça pelo consumidor estrangeiro, sobretudo o europeu, aliada à crescente procura do consumidor interno, tem impulsionado o surgimento de inúmeras marcas de cachaças artesanais, em destilarias espalhadas por todo o país, sobretudo no estado de Minas Gerais, o maior produtor nacional. Segundo a Ampaq – Associação Mineira dos Produtores de Cachaça Artesanal – existem, hoje, mais de oito mil alambiques em todo o território mineiro.

"Muita gente já está substituindo o uísque pela cachaça; hoje o cliente já pede a bebida pela região onde é feita e pela madeira onde é envelhecida, ou seja, estamos aprendendo a degustar o nosso produto", diz ele, que também é associado do G8, grupo sediado em São Paulo que agrega produtores, distribuidores e promotores da cachaça em todo o Brasil. "A idéia da associação é divulgar as melhores marcas e expandir ainda mais o mercado para os nossos produtos, mostrando que uma boa cachaça pode ser tão ou mais saborosa que os melhores destilados do mundo", afirma.

Em busca de mesas elegantes ao redor do mundo, os produtores, segundo o sócio da G8, vêm buscando novidades que os destaquem. Uma tendência recente é a cachaça orgânica, trabalhada sem adubos sintéticos e herbicidas. A bidestilação, que torna a bebida mais pura, veio como necessidade para facilitar a exportação. Já a Espírito de Minas, uma das mais cobiçadas do País, selecionou uma reserva especial, armazenada durante seis anos, e pediu ao artista plástico Aldemir Martins uma releitura do tradicional rótulo. "É o caminho mais curto para que a cachaça chegue aos 42 milhões de litros de produção estimados para 2010", acredita ele.

Garrafas de até R$ 1 mil

Mas não é só na qualidade que a cachaça tem feito frente às melhores bebidas importadas. Esqueça os rótulos malfeitos e as garrafas rústicas de vidro escuro, que sempre foram símbolos de aguardente. A velha caninha de boteco sofisticou-se também na estética. Agora já pode ser encontrada em garrafas de cristal, cerâmica ou louça com estilos próprios. Algumas – como a Sarau Dona Beja – podem vir com detalhes em ouro feitos à mão. "As chamadas cachaças premium já custam mais caro do que um legítimo uísque escocês", diz Dirceu Maiante, proprietário da cachaçaria Água Doce. Dependendo da marca, o preço de uma cachaça premium para o consumidor pode variar de R$ 100 a R$ 1 mil, como é o caso da Havana, que há dois anos deixou de ser engarrafada com este nome e virou raridade.

Curiosamente, a cachaça mais cara do país ainda é vendida em garrafas comuns, de vidro fosco, por uma questão de tradição. Produzida em Salinas (MG), a Havana já era considerada uma das melhores cachaças artesanais do Brasil quando, em uma briga judicial, o produtor Anísio Santiago perdeu o direito sobre a marca. A garrafa e a bebida continuaram a mesma, porém o rótulo teve de sofrer uma alteração: de Havana passou a levar o nome de seu criador, Anísio Santiago. Hoje, uma garrafa com o rótulo original e número de série custa entre R$ 700 e R$ 1 mil no mercado.

"Uma legítima Havana é peça de colecionador; quem tem não vende de jeito nenhum, na esperança de que valorize ainda mais", explica Lídia Attilio, proprietária da Cachaçaria Brasil, onde a dose desta cachaça custa nada menos que R$ 22. "Quando acabar o nosso estoque de Havana, que já é pouco, provavelmente vamos ter de aumentar o preço da dose, já que está cada vez mais difícil achar garrafas originais", explica.

Apesar do preço elevado, existem pessoas que não tomam outra marca que não seja feita nos alambiques de Anísio Santiago. Como afirma Gláucia Lima, também proprietária da Água Doce, já foi o tempo em que o cliente pedia a cachaça pelo preço. "Hoje, o apreciador de cachaça vai atrás de qualidade", acredita.

Qualidade reconhecida até pelos hotéis cinco estrelas e restaurantes finos, como o badalado complexo Fasano, em São Paulo. No cardápio, antes reservado apenas aos melhores vinhos e champanhes, já se pode encontrar, por exemplo, a cachaça GRM, de Araguari (MG). A dose não sai por menos de R$ 25. "O que os alambiques artesanais estão fazendo é uma pequena revolução", define Wendel. Para ele "os produtores perceberam que não adiantava fazer cachaça em escala industrial para competir com a indústria de aguardente e encontraram seu filão de mercado nas cachaças premium". Ainda segundo Wendel, o preço das cachaças especiais acaba sendo elevado, também, porque a produção artesanal é sempre baixa em relação à procura do consumidor. "Ter em casa uma marca específica acaba sendo um desafio para os colecionadores, por exemplo".

Cachaça premium para os amigos

"Tudo tem de agregar valor na cachaça; é uma maneira de destacar o seu produto dentre tantas marcas de qualidade", explica o engenheiro eletrônico Eduardo Stersi, produtor da Tonel 40, uma cachaça artesanal que foi criada, inicialmente, para presentear amigos, mas que a procura acabou levando seu criador a abandonar a antiga profissão para dedicar-se quase que exclusivamente à ela. "Minha meta é chegar a ter uma estrutura razoável para sobreviver apenas da cachaça", sonha ele.

Como a produção é muito baixa – Stersi conta apenas com 25 tonéis –, as cachaças são vendidas em caixas de madeira e vêm acompanhadas de rolo de fumo e canivete ou charuto baiano e guilhotina. O preço é de R$ 100.

Envelhecida na região de Campinas, a Tonel 40 é considerada uma cachaça finíssima, de produção muito baixa – Stersi conta com apenas 25 tonéis. Pela maneira como é produzida, a Tonel 40 pode ser considerada uma cachaça premium. "Como a acidez é praticamente zero, tem-se a impressão de ela ser mais suave quando degustada", diz ele.

Antes de abrigar a cachaça, cada barril – o mesmo barril escocês usado na fabricação dos uísques – é lavado com malte e mel, para absorver a acidez da bebida. Nos dois primeiros anos o líquido fica intocável. "É ideal que o tonel permaneça num local calmo, escuro e empoeirado", recomenda. A Tonel 40 mais procurada é a que apresenta envelhecimento de nove anos.

Cachaça com certidão de nascimento

Há pouco mais de um mês, o Brasil enviou à Organização Mundial de Alfândegas (OMA), um pedido de registro internacional da denominação. Em inglês: cachaça. Em francês: cachaça. Em espanhol: cachaça. Desse modo, preservando o nome original da bebida, a boa e velha cachaça começa a conquistar o mundo. "Daqui para a frente, nenhum outro país poderá usar a marca brasileira para produzir qualquer tipo de bebida", diz Wendel Alves da Silva.

A cachaça agora vai chegar às mesas do mundo inteiro com certidão de nascimento, assim como o rum e a tequila. "Levar nome próprio em qualquer lugar do mundo é uma vitória dos produtores nacionais e um reconhecimento mundial da qualidade e do refinamento de marcas brasileiras", completa Dirceu Maiante.


entre em contato com o autor: bruno@cumbuca.com.br

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