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Sérgio Bambirra - produtor, professor e ótimo anfitrião

GOTA DA ADEGA - Especial
Arte, tecnologia e muito suor

A equipe do Cumbuca foi convidada pelo Sérgio Mattos da Adega da Cachaça para conhecer in loco e em detalhes a produção da Gota da Adega produzida por outro Sérgio, o Bambirra, que é o mesmo produtor da Gota de Minas. Depois de muita insistência e ajustes de datas (pois a equipe do Cumbuca é mais ocupada que orelhão grampeado) nós cedemos à tentação. Fomos para Ouro Preto nos dias 19, 20 e 21 de agosto e passamos assim um final de semana sofrido e trabalhando arduamente para satisfazer os bêbados internautas ávidos de informação. O texto a seguir, trata-se de uma explicação detalhada da produção da cachaça Gota da Adega, fruto das explicações de Sérgio Bambirra o produtor/professor que, depois de trabalhar vinte anos no Pro álcool, se dedica hoje à meticulosa produção de cachaça artesanal misturada com muito conhecimento, tecnologia, pesquisa, trabalho e muita dedicação.
Aproveitem esta edição especial deste cumbuquesco buteco digital e quem sabe, com as informações que seguem, vocês comecem a produzir cachaça. O primeiro passo é comprar uma fazenda ou tentar fazer em sua kitinete.

> E no começo era a cana-de-açúcar
> A fermentação
> A destilação
> O armazenamento e envelhecimento
> Novas pesquisas
> informações



E no começo era a cana-de-açúcar

Na primeira fase do processo temos o canteiro de mudas para reprodução, a maior parte da cana fica do outro lado da fazenda. Este canteiro teve início com mudas experimentais, ‘trouxemos 10 variedades de cana do centro de pesquisas da Universidade Federal de Viçosa e das 10 selecionamos 3 que se adaptaram melhor com alta produtividade, bastante açúcar, resistência a geadas e a frio, pois aqui é uma região mais fria’ explica Bambirra. Este canteiro, portanto é para produção de mudas para renovação do canavial, a cada 4 anos é necessário realizar essa renovação. Esta cana é a RB1840, uma cana melhorada geneticamente no Brasil na época do Pro álcool. Hoje existem grandes centros de pesquisa em relação á cana de açúcar, a Copersucar em São Paulo, a ESALQ em Piracicaba, na antiga Planalsucar em Ponte Nova, Minas Gerais. O Brasil hoje é um dos países mais avançados no mundo em genética de cana.
Então o que é de fundamental importância é ter uma cana sadia, esta cana (foto) está com 6 meses, com um ano ela está pronta para ir ao canavial.
O primeiro tipo de cana de açúcar introduzido no Brasil é de Funchal na ilha da Madeira, ‘A cachaça, pode-se dizer é a energia solar engarrafada’ filosofa Sérgio.
O corte da cana deve ser feito com uma ferramenta o mais limpa possível para evitar fonte de contaminação, a partir do momento que ela é cortada inicia-se um processo de degradação microbiológica. Trata-se de um meio de cultura muito propício para desenvolvimento de microorganismos contaminantes, como no processo de fermentação temos um microorganismo que é um fungo que transforma o açúcar em cachaça todo cuidado é pouco na questão de infecção. É importante que o corte da cana seja o mais rente possível ao solo.

No primeiro corte a cana produz de 100 a 120 toneladas por hectare, no segundo corte cai 20%, em torno de 80 toneladas, no terceiro 70, no quarto, 60 toneladas e no quinto corte em diante se torna anti-econômico, aí é feita a renovação do canavial. A média no Brasil dos quatro cortes é de 70 toneladas. Em Cuba tem uma produção de 150 toneladas por hectare, lá é mais tropical, tem mais calor e eles têm uma tecnologia que desenvolveram com cana de açúcar no Caribe. E na África do Sul que é a maior produção de cana-de-açúcar do mundo hoje, chegam até 180 toneladas por hectare.
Antes do corte são retiradas as folhas ou a palha da cana é feito o corte, corta-se a parte de cima da cana, o chamado palmito da cana que serve para engorda dos animais ou então se deixa na terra para adubação orgânica, da cana se aproveita tudo.
Na produção de cachaça industrial se queima o canavial todo, o que além de um problema ecológico sério, ao colocar a cana recém cortada em altas temperaturas, ela fica sujeita à contaminações, podendo se degradar rapidamente e além disso é arrastado para a fábrica o carvão produzido na queima. Quando se extrai esse caldo, temos uma cana com muita possibilidade de contaminação microbiológica mais o carvão, para fazer esse controle microbiológico, na produção de cachaças industriais são usados diversos produtos químicos como ácido sulfúrico, micro biocidas, antibióticos e até penicilina é usado. Tudo isso para ter o controle em função da queima da cana.
Para a produção de cachaça artesanal em Minas Gerais é proibida a queima da cana por questões ecológicas e por questões de contaminação. Na fermentação da Gota da Adega é toda natural, aqui é proibido o uso de qualquer produto químico.
A cana cortada é transportada até o pátio de armazenamento. E imediatamente é feita a extração do caldo, o bagaço passa por uma calha, vai para o pátio onde é secado e queimado na fornalha, se usa o bagaço como fonte de geração térmica, como já dissemos, da cana se aproveita tudo.




O cumbuqueiro Lucas grava toda a 'aula' do Prof. Sérgio







‘A cachaça, pode-se dizer
é a energia solar engarrafada’

filosofa Sérgio

 

 

 




O corte rente ao solo
garante o teor de açúcar









 

 





O bagaço é reaproveitado como combustível na fornalha






Área onde é extraído e se dá
o início do processo de
fermentação






Decantação do caldo

 



Fermentação: fase essencial na formação do buquê e sabor






Bambirra confere se está tudo
bem com seus fungos

 




Laboratório de pesquisa



A fermentação


O caldo vem por gravidade, passa por um pré decantador depois vai para um outro compartimento onde é feito o preparo da fermentação que consiste em diluir com água o caldo para baixar de 22% de açúcar para 16% que é o ideal para a fermentação. Neste caso trata-se de uma fábrica compacta, mas de alta eficiência, tem a capacidade de produzir 500 litros de cachaça por dia. O caldo segue então por gravidade até parte de fermentação. Para a produção desta cachaça tem-se uma tecnologia de leveduras selecionadas, microorganismos selecionados, trata-se de fungos unicelulares (Saccharomyces cerevisiae), que normalmente estão na natureza, na nossa micro flora e que cientificamente não se sabe de onde ele vem. Existem pesquisadores que dizem que esses fungos estão na casca da cana, outros dizem que vem com a terra que é arrastada junto com a cana, que está no fubá ou está no caule, na realidade ele está na nossa micro flora. Em 1998 Sérgio Bambirra isolou uma cepa (linhagem) desse microorganismo em parceria com o departamento de micro biologia da UFMG. No final da safra esse microorganismo é extraído do processo, inoculado em um meio de cultura e quando começa a safra ele é trazido e inoculado no processo junto com caldo de cana, fubá, farelo de arroz e farelo de soja como fonte de nutrição para esse microorganismo. “Então essa cepa a gente costuma falar que é a cepa gota de Minas, nós já trouxemos cepas por exemplo do norte de Minas para cá, que é mais quente, é você por ela aí dentro que ela morre” explica Bambirra. Isso é portanto a grande diferenciação na padronização do produto: seleção de microorganismos e um controle microbiológico sistematizado. E para ter esse controle existe a parte de microscopia, para observar como está a taxa de reprodução, se a parede celular está robusta e firme nesses microorganismos para o processo de fermentação. Pouquíssimas fábricas têm esse controle e talvez só a Gota de Minas o faz com microscopia.

Temos então três fases do processo: o processo mecânico, que é a extração do caldo por compressão; o processo biodinâmico que envolve a bioquímica e a microbiologia , que é a fermentação que é a alma do negócio, onde todo o cuidado é pouco na higiene, limpeza e lavagem; e a terceira fase que é a parte física que é o processo de vaporização (destilação).
O processo de fermentação é um processo exotérmico, quando o microorganismo trabalha seu metabolismo gera calor, ele quebra a molécula de glicose em álcool etílico mais gás carbônico (que são as bolhas) e energia em forma de calor. A temperatura ideal na fermentação é de 32 até 35 graus Celsius, acima dessa temperatura começa um processo de desnaturação das proteínas e dos microorganismos dando espaço para bactérias termofílicas, que são bactérias resistentes a altas temperaturas e começa a infecção no processo. Esse é o grande drama da cachaça do norte de Minas, uma região quente que para se ter o controle nessa temperatura é preciso fazer refrigeração, como lá eles tem falta de água, acabam tendo muito problema de contaminação no processo. Como a região de Ouro Preto é fria não existe esse problema. Quando não existe mais açúcar é sinal que terminou o processo de fermentação, no caso da Gota de Minas, esse processo demora de 14 a 16 horas, quanto mais rápido esse processo mais pura é a cachaça.


A destilação

Depois desse processo temos o vinho fermentado que, por gravidade, passa por uma peneira para tirar alguma impureza maior, segue para o pré aquecedor e depois para o alambique. Cada uma das cinco dornas têm capacidade para 700 litros e um alambique também de 700 litros, em cada alambicada é produzido 100 litros de cachaça, portanto é possível produzir 500 litros de cachaça por dia. A cachaça a setenta graus evapora assim no alambique existe uma serpentina que condensa esses vapores de cachaça e com ajuda de água para resfriar a cachaça sai do alambique à vinte graus. A primeira fração que sai do alambique, a chamada cabeça, arrasta alguns compostos secundários, álcoois superiores, especialmente aldeídos que são os principais causadores da ressaca e da dor de cabeça, portanto essa fração que corresponde a mais ou menos 15 litros é descartada. A segunda fração é o coração, que é o que interessa, a cachaça nos padrões pré-determinados que vai para o armazenamento e envelhecimento. A terceira fração também não interessa, é o final do processo de destilação chamada de calda, ela contém principalmente os ácidos orgânicos, o ácido acético (vinagre) que provoca acidez na cachaça e com essa acidez ela arrasta o cobre que é muito prejudicial para a saúde, corresponde a uns 30 litros. ‘Tem gente que diz que estou perdendo muito, mas não, estou depurando a cachaça’ comenta Sérgio.

Para chegar a essas medidas das frações foram feitas mais pesquisas. A partir de 1999 definimos, como fruto dessa pesquisa, uma padronização no processo que é todo informatizado.
Os bons alambiques são de cobre martelado pois esse metal reage com o vapor da cachaça e ajuda a oxidar num processo de oxi redução, como no processo de destilação existem álcoois superiores em contato com a tubulação de cobre quebram-se em moléculas menores reduzindo alguns compostos secundários em produtos menos tóxicos. Por isso o cobre ajuda a depurar da cachaça.
O aquecimento do alambique deve ser muito cuidadoso, sempre em 70 graus, pois se existir um aumento de temperatura o vinho fermentado é arrastado junto com a cachaça e ocorre o “vômito” que é o vinho saindo no lugar da cachaça, quando isso ocorre se perde o processo todo e é necessário limpar o alambique inteiro. Esses álcoois superiores são produzidos na fermentação por leveduras selvagens e eles têm um ponto de volatilização próximo da cachaça, próximo do álcool etílico, compostos secundários que com 72 graus centígrados evaporam também, por isso a temperatura deve ser controlada rigorosamente. Na produção industrial de cachaça os alambiques são de aço inox e não ocorre nenhuma reação com o produto, além de não separem as frações na destilação da cachaça.
Do vinho fermentado retira-se só o álcool, só a cachaça, o caldo escuro da cana é o vinhoto, portanto em 700 litros retira-se 100 de cachaça e 600 litros é subproduto que se for jogado no rio você mata os peixes, mas pode-se reaproveitá-lo na terra como adubo.


O armazenamento e envelhecimento

Essa cachaça branca recém destilada é bombeada para o armazenamento que pode ser em tonéis ou dornas de madeira ou de aço inox. São produzidos 8 mil litros por mês de cachaça e o interessante é que a intenção não é aumentar a produção, pois isso despadronizaria todo o processo alterando cor e sabor da cachaça. A intenção de Sérgio é ter um produto com mais valor agregado.
A Gota da Adega é um mix ou blend que é a mistura de cachaças envelhecidas ou descansadas em madeiras diferentes. Ela é envelhecida em dornas de Umburana uma madeira bastante ativa mudando a coloração, o sabor e o buquê (odor) da cachaça e descansada em tonéis de Jequitibá, uma madeira neutra que não agrega nem sabor, nem coloração à cachaça, porém a madeira troca oxigênio com o ar e isso faz com que exista a micro oxigenação, novamente a oxi redução, depurando ainda mais a cachaça. Por isso é importante a cachaça passar, no mínimo 6 meses em madeira para ser palatável. A Gota da Adega é blend de jequitibá e de umburana. Para chegar nessa porcentagem os dois Sérgios, o Bambirra e o Mattos, passaram 3 meses ajustando seu sabor.
Cada tonel tem um histórico, ano de produção da cachaça, as condições de acidez e grau alcoólico. Na adega é bom que tenha umidade pois o mofo têm uma função, a de produzir ésteres, e os ésteres que dão o buquê á cachaça.
A homogeneização da cachaça é feita a colocando-se a cachaça numa dorna de jequitibá com capacidade de 5 mil litros que correspondem a 7 mil garrafas. As garrafas não devem ser reutilizadas nunca por perigo e contaminação.


Novas pesquisas

Existe uma cepa de levedura com maior capacidade de produzir ésteres responsáveis pelo buquê da cachaça. ‘Estamos tentando isolar esse microorganismo e ter uma cultura pura para trabalhar no processo, isso envolve química, física, microbiologia, genética. Aí precisaríamos de um ambiente hermeticamente fechado, asséptico, mas isso já é uma evolução tecnológica, uma sofisticação, eu não sei até onde a gente vai caminhar com isso, mas há muito que pesquisar’ finaliza Bambirra.
Bom agora se vocês não forem produzir cachaça pelo menos ao degustar a Gota da Adega pensem no trabalho, na arte, no conjunto de métodos e técnicas, na conhecimento e na dedicação, que temos certeza que terão papo pra noite inteira.

Agradecemos a dedicação e paciência do Sérgio e Eduardo Mattos, do Sérgio Bambirra, do Alberto - o 'Belém' da Adega da Cachaça – Campinas e ao Prof. Dr. Jorge Vega que nos ajudou a entender um pouco mais o processo.





Alambique

 





Cobre martelado ajuda
a 'quebrar' a ressaca






Temperatura contínua de 70ºC

 

 

Bambirra ao lado do
seu tonel número 1







O cumbuqueiro Junior
começa a dar trabalho






Alberto 'Belém' confere
o patrimônio

 

 


O Sítio do Sapê, onde é
produzida a cachaça, abriga
uma pousada onde você pode passar o final de semana e aprender mais






site
www.gotademinas.com.br

Contato
adegacachaca@uol.com.br
falecom@gotademinas.com.br

Pousada
Sítio do Sapê
Distrito de Amarantina
Ouro Preto / MG
Tel. 31-35611410
Fax 31-3468-5852


Para Comprar
Adega da Cachaça
Av. Nossa Senhora de Fátima, 84, Taquaral, Tel. (19) 3254.0822

Obrigado mais uma vez Sr. Alberto, Sr. Sérgio e Eduardo e Sérgio da Gota de Minas! E todo o pessoal que nos recebeu em BH.

subindo!


 

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