parte II

Meu primeiro copo quem me deu foi uma velha, no tempo em que eu ainda estava no bosque. Chegava um e me dava pipoca, chegava outro e me dava pipoca. Um dia apareceu esta santa alma e me passou um copo de plástico com bebida dentro.

Junior – Você tem fama de ser um grande bebedor. Quando começou a beber?
Maguila – Meu primeiro copo quem me deu foi uma velha, no tempo em que eu ainda estava no bosque. Chegava um e me dava pipoca, chegava outro e me dava pipoca. Um dia apareceu esta santa alma e me passou um copo de plástico com bebida dentro. Acho que era vermute. Durante meses a velha passou a me levar vermute escondida. Quando ela morreu, começaram as crises de abstinência.

Lucas – Pó quê você acha que a velha levava vermute pra você?
Maguila– E eu lá sei? Tem gente louca pra tudo. Mas o melhor vocês não sabem: como eu estava visivelmente dependente do álcool, precisei ser afastado do grupo e fiquei de quarentena, na enfermaria do bosque. Um dia apareceu um jornalista, ele tava fazendo uma entrevista com a doutora. Eu aproveitei a deixa para fugir. E eu lá queria ficar curado? Quando deram por mim eu já estava longe. Jornalistas são patetas.

Bruno – Maguila, não cuspa no prato em que comeu. Você foi um ás da imprensa nacional.
Maguila – Fui, você disse bem: fui. Ainda bem que me livrei desta sina maldita. A última coisa que eu queria na vida era ter de entrevistar alguém como eu.

Junior – E depois da fuga, foi para onde?
Maguila– Eu ia chegar lá. Passei dois meses sem rumo, revirando lixo, usando todo o tipo de drogas. Eu cheguei ao fundo do poço. Quem me salvou foi a Hilda Hilst.

Lucas – A escritora? Vocês se conheciam?
Maguila – Meu filho, eu morei com a Hilda por quase dez anos. Ela me encontrou na vigésima dose de rum, numa mesa do Galo de Ouro. Puxou papo comigo e descobrimos interesses eílicos em comum. Eu ainda não era um gênio, mas já tinha alma de poeta.

Bruno – Quem lhe ensinou a ler?
Maguila – Foi a própria Hilda. Se bem que o escritor J.Toledo, amigo da minha madrinha, foi de suma importância na minha formação intelectual. Varávamos madrugadas, os três, enfurnados no sótão, fumando, bebendo e nos entregando à divagações filosóficas.

Junior – O que você fazia na Casa do Sol. Não ajudava em nada?
Maguila – Lá vem vocês com essa mentalidade limitada. Então eu tinha de ser escravo da Hilda só porque ela me tirou da rua? Não, eu não fazia muita coisa mesmo. Ta certo que cuidar dos seus 90 cães não era uma tarefa muito simples, mas também não me tomava todo o tempo do mundo.

Lucas – Qual foi o seu primeiro emprego ao sair da casa de Hilda?
Maguila – Eu havia me transformado num intelectual, não podia mais ficar pulando de galho em galho, como antes. Fiz um curso de tarô por correspondência e passei a ler o futuro das clientes do cabeleireiro Wanderley Nunes. Cobrava caro e trabalhava de cinco a sete horas por semana. Foi a melhor fase da minha vida.

Bruno – Foi nessa época que escreveu seu primeiro livro, “Como Ganhar Dinheiro Dando Uma de Boiola Mesmo sendo Espada”? Fale um pouco sobre o livro.
Maguila – Na época foi um best-seller, sucesso absoluto. O lançamento foi na Hípica. A high-society compareceu em peso: Chitãozinho & Xororó, Regina Duarte, Bete Nunes, Carlão Sampaio. Só gente bonita e de bem com a vida.

Junior – E você ficou com fama de boiola? Conta pra gente: você beliscava o azulejo ou tudo não passava de intriga da oposição?
Maguila – Eu nunca andei pendurado em cipó e a única banana que descasquei foi a minha. O que falam de mim são calúnias, como dizia aquele cantor extraordinário...Aquele da barriga peluda...




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