parte I

Eu trabalhei na imprensa durante muito tempo, não queria mais escrever. Até que vocês me descobriram, não sei como. Eu tinha abandonado o jornalismo porque os editores não me tratavam como um ser humano.


Bruno – Maguila, vou começar perguntando. Quem é você?

Maguila Moreira – Como assim, quem sou eu? Eu sou eu e o diabo são os outros, já dizia aquele francês... Como era o nome dele mesmo?

Bruno – Jean-Paul Sartre.

Maguila – Este mesmo. Mas, voltando a tua pergunta: odeio responder a esse tipo de questão, porque não interessa a ninguém. Você pode ser mais objetivo?

Lucas – Está bem. Gostaria que você se apresentasse aos leitores do Cumbuca, explicando o motivo pelo qual nós o convidamos a assinar uma coluna mensal e a responder cartas de leitores.
Maguila – Melhorou, mas ainda é uma pergunta vaga. Só vocês sabem o real motivo pelo qual me chamaram. Eu trabalhei na imprensa durante muito tempo, não queria mais escrever. Até que vocês me descobriram, não sei como. Eu tinha abandonado o jornalismo porque os editores não me tratavam como um ser humano.

Junior – Mas você é um chimpanzé, Maguila...
Maguila – Animal também é gente, já dizia aquele vereador... Aquele de óculos... Como é mesmo o nome dele?

Lucas – Feliciano?
Maguila– Justamente. Pois bem, o fato de eu ser macaco não dá o direito a ninguém de passar a vida inteira me dando bananas. Esse tempo de reclusão foi importante para que eu me dedicasse apenas à literatura.

Lucas – Você poderia falar um pouco do livro que está escrevendo?
Maguila– Quem me incentivou a escrever um romance foi minha única e grande amiga Safira Mind. Não posso adiantar muita coisa porque o livro ainda não está pronto, mas trata-se de uma visão erótico-existencialista do Tarzan, a partir do ponto de vista da Chita. Tratar-se-á de uma obra divisora de águas na literatura psicológica universal.

Junior – Podemos voltar um pouco no tempo? Quem são seus pais? Onde você nasceu?
Maguila– Como vocês sabem, não sei quem são meus pais. Eu nasci num circo paraguaio, que fazia temporada em Campinas. Fui abandonado ou me esqueceram por aqui e eu acabei sendo adotado pelo Bosque dos Jequitibás. Por quê catzo vocês têm de tocar neste assunto?

Bruno – Porque isto é uma entrevista, Maguila. Os leitores querem saber sobre a vida do ídolo.
Maguila– Quem tem ídolo são os índios e as adolescentes bobinhas. E se me perguntarem outra vez sobre minha infância quebro este gravador.

Lucas – Você é sempre mal-humorado assim?
Maguila– Eu não sou mal-humorado. É que odeio ter de responder perguntas imbecis. Alguém me passa o fósforo?

Bruno – Serve isqueiro?
Maguila– (acendendo o cigarro) Obrigado. Desconfie das pessoas que não fumam. Essas não têm alma.

Bruno – Já dizia o Mário Quintana. Quantos maços você fuma por dia?
Maguila– No máximo dois, no mínimo um e meio.






 
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