parte V

Eu estou longe de ser um escritor. Eu acho que não teria saco para escrever um livro.

Bruno – Eu queria mudar um pouco o rumo da conversa e falar um pouco da tua relação com a literatura, sendo você um cronista. Quando é que você descobriu que tinha talento para escrever?
Zeza – Eu nem sabia que eu fazia crônica... Eu apenas escrevo...

Bruno – Você escreve crônicas...
Zeza –Eu apenas reporto a coisa. Registro as coisas que eu vejo, as coisas que eu sinto. Mas eu estou longe de ser um escritor. Eu acho que não teria saco para escrever um livro. Infelizmente eu não tenho esse dom. Já estou satisfeito com os autores que nós temos aí. Eu não somaria nada...

Bruno – Zeza, a sua modéstia me irrita. Quais são os seus autores preferidos?
Zeza
– Eu não tenho... Eu não sei... Eu adoro a Bíblia... É um grande livro. Em todos os sentidos [risos]. Não tenho um livro ou um autor preferido... Eu gostava muito do Stanislaw Ponte Preta, do Fernando Sabino, do Antônio Maria. O Lourenço Diaféria eu achava maravilhoso. Mas eu leio de tudo. Aliás, adoraria que o papel higiênico viesse com alguma coisa escrita. Seria perfeito, não acha?

Bruno – Seria uma literatura de merda...
Zeza – [risos] Mas sabe de uma coisa? Esta é uma puta idéia! Mas ninguém me leva a sério...

Lucas – Você já escrevia antes de entrar para o jornal?
Zeza – Profissionalmente não. Eu fui contratado para fazer crítica de música. A primeira que eu fiz foi em cima de um disco da Simone, um disco belíssimo que eu nunca mais encontrei. Um no qual ela gravou só frevos. Só que frevo tocado feito marcha-rancho: [cantando] Felinto Pedro Salgado... Lindo, lindo. Mas a crônica veio naturalmente, porque na própria crítica eu já colocava uma linguagem muito pessoal, muito próxima do que o Bruno faz hoje, com essa coluna de botecos que ele tem.

Bruno – Zeza, eu já disse isso pra você, mas quero deixar registrado aqui nesta entrevista. Quando eu comecei no jornalismo, você era minha maior referência.
Zeza – Eu também já falei que sou seu fã, queria que isto ficasse registrado também [risos].

Lucas – Ih... Pintou um clima na conversa...
Zeza – Mas é verdade [risos]. A crônica é o poder de síntese. Quanto menor, melhor. Mas não é fácil, não. O espaço do jornal sempre foi limitador.

Lucas – O quanto você depende dessa rotina de escrever todos os dias?
Zeza – Financeiramente falando?

Lucas – Existencialmente...
Zeza – Eu não vivo sem escrever. Não entra na minha cabeça ficar sem escrever.

Bruno – Você prefere a crônica ou a música?
Zeza
– As duas, né? Tem muito de crônica nas minhas músicas e muito de música nas minhas crônicas.

Bruno – Eu queria que você contasse a história de uma música sua, que, aliás, é a minha preferida. No bairro da minha infância se falava muito num bandido conhecido por Diabo Loiro. Quando eu descobri que você tinha feito uma música em homenagem a ele, fiquei muito feliz. Porque o Diabo Loiro faz parte das minhas recordações mais antigas...
Zeza – Essa música foi feita em 1971, se não me engano. Diabo Loiro foi o último bandido romântico que nós tivemos. Não consta que tenha matado ninguém à traição, só roubava bancos e joalherias. Era um lorde, além de muito inteligente. Certo dia, por volta de 1974, eu estou no City Bar e sou abordado por dois caras armados. Eram os seguranças dele. Perguntaram se eu era o Zeza Amaral e eu confirmei. Aí apareceu o Diabo, puxou a cadeira, sentou-se e disse: "Fiquei sabendo que você fez uma música pra mim. Eu queria que você me mostrasse". Eu estava sem violão e ele disse que não precisava, que eu podia cantar à capela mesmo. Aí eu cantei, né? "Gostei. Legal essa música, obrigado", ele falou e foi embora. Fiquei extremamente honrado com a opinião do Diabo Loiro. Depois disso nós fica-mos amigos.

Bruno – Corrija se eu estiver errado, mas você ganhou o primeiro Prêmio Sharp de MPB, em 1987, certo?
Zeza – Foi em 1986. O LP se chamava Clareia e contou com os arranjos do Paulo Pugliesi. Ele já vinha trabalhando comigo há quase quatro anos e nessa ocasião o disco ganhou o prêmio de melhor arranjo. Mas acabou não indo pra frente porque logo depois o departamento fonográfico da 3M fechou.

Bruno – E fechou por qual motivo?
Zeza – Má administração. Que na verdade é eufemismo de roubalheira. Então a 3M fechou e o acervo da gravadora foi vendido pra Continental e hoje está nas mãos da Warner Music, que detém os direitos, inclusive a fita master do meu disco.

Lucas – E você não tem mais direitos sobre o teu próprio disco?
Zeza – Não tenho... Existe uma lei que me permite fazer este resgate. Mas isso daria muito trabalho e eu não quero esquentar a cabeça com isso. Compositores da minha conduta profissional são despretensiosos em relação ao estrelato.

Júnior – Você não pensa em gravar um CD?

Zeza – Meu próximo passo é um show que estou preparando para este mês, que se chama Gafieira Brasil. Nele vou reunir samba, samba-canção, samba de breque, xote, tango, bolero, valsa, moda de viola, enfim, vou explorar várias sonoridades de bandolim, de cavaquinho, de violão sete cordas, de sanfona, de percussão. Um negócio bem brasileiro mesmo.

Lucas – Zeza, você é militante histórico do PT, nunca escondeu isso de ninguém. Como é que você analisa o desempenho desse governo que aí está? O que mudou do Fernando Henrique para o Lula?
Zeza – [pausa] O governo Lula é um bundão sarado. O governo do FHC, como todo governo neoliberal, era um bundão meio flácido e cheio de marcas de talco [risos]. O governo Lula é um bundão de operário: sarado, musculoso. Mas não deixa de ser bundão, né?

Bruno – Bom, pra terminar a entrevista, eu quero fazer uma pergunta que para mim significa muito. Você continua sendo socialista? E em que tipo de socialismo você acredita?
Zeza – [pausa] Eu acho que estou voltando às minhas raízes, ideologicamente falando. O [ jornalista e escritor ] Carlos Heitor Cony, disse recentemente que não é mais comunista nem capitalista, mas apenas um anarquista triste. Eu, ao contrário, me sinto hoje um anarquista muito alegre. E estou me sentindo muito bem com isso.



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