parte IV

Em 1968 eu estava responsável por levar armas e explosivos de Campinas á São Paulo. Eu ia de ônibus e levava o material dentro da caixa do violão.

Bruno – E como é que você entra para a luta armada?
Zeza – Isso foi em 1967. Eu era diretor do grêmio estudantil do Ataliba Nogueira e um dia baixou polícia no colégio e me levou. Fui interrogado por um sargento da escola de cadetes, que ficou o tempo todo enchendo o meu saco por causa do meu cabelo, que eu era viado, coisa e tal. E eu disse pra ele não se incomodar porque o cabelo era meu e ninguém tinha nada a ver com isso. Aí ele me virou um tapa na cara. Foi um belo de um tapa. E eu agüentei firme. O boxe ajuda nessas horas porque você aprende a tomar porrada e não sentir raiva. Mas aquilo me doeu na alma. Pensei comigo: por quê um cara desse me deu um tapa? Com que direito esse filho da puta me dá um tapa na cara?

Lucas – Mas você ainda não tinha envolvimento com os grupos armados?
Zeza – Ainda não. Fui liberado no mesmo dia. Pouco tempo depois um vizinho meu me chamou num canto pra conversar. Ele ficou sabendo do tapa que eu tomei e veio falar comigo. Ele abriu o jogo, disse que estava precisando de gente para engrossar o corpo de uma organização revolucionária e que eu era bem articulado, que tinha muitos contatos, que sabia conversar. Eu acabei entrando. Nem foi uma coisa extremamente calculada. Quando dei por mim já estava envolvido até o pescoço. Daí não teve volta. Numa situação em que a liberdade do seu país está em risco você tem que fazer alguma coisa. Se você tem alguma consciência e amor pela pátria, você faz. Não é uma decisão tão racional quanto dizia a esquerda. Muita gente acabava entrando por paixão mesmo.

Lucas – Em 68 você já estava andando armado...
Zeza – Já. Em 68 eu estava responsável por levar armas e explosivos de Campinas para São Paulo. Eu ia de ônibus e levava o material dentro da caixa do violão. Eu me valia da condição de músico para transitar pela rodoviária sem despertar muita suspeita. Nessa época eu participei também de alguns assaltos a carros-fortes.

Júnior – Você fazia parte de que organização?
Zeza – Eu fazia parte da ALN [Aliança Libertadora Nacional], do Carlos Mariguella.

Bruno – E como foi essa experiência de assaltar carro-forte?
Zeza – Eu dirigia o carro e às vezes dava cobertura, ou seja, fazia uma segurança discreta, um pouco afastado do local. Teve um dia que nosso grupo roubou um carro-forte, em São Paulo, achando que ia se dar bem. Usamos dinamite para abrir a porta. Quando conseguimos abrir o carro, o que é que a gente encontra lá dentro? Maconha. Centenas de tijolos de maconha. Ao invés de dinheiro, maconha. Agora eu me pergunto: o que é que a maconha estava fazendo dentro do carro-forte de um banco?

Bruno – E o que vocês fizeram? Fumaram tudo?
Zeza – Não, pô! [risos] Aliás, maconha baixa a minha pressão, não gosto. Nós enviamos uma carta anônima para um jornal, dizendo onde eles poderiam encontrar o material. Não soube o que eles fizeram com aquilo...

Lucas – Houve uma situação em que teve de atirar para matar?
Zeza – Não. Mas vivi uma situação-limite, onde quase tivemos de votar pela eliminação de uns sujeitos. Eram uns desgraçados que a TFP [ Tradição, Família e Propriedade, organi-zação católica de extrema-direita ] conseguiu infiltrar no movimento. Eles foram descobertos porque nós também tínhamos um companheiro infiltrado na organização deles. Nós os enquadramos num prostíbulo. Aliás, local perfeito para encontrar militantes da TFP, hein? [risos].

Bruno – E o que aconteceu depois?
Zeza – Nós os levamos para um sítio afastado. A maioria queria matar logo, mas tinha uns companheiros que eram contra. A vontade geral era eliminar esse povo, mas tudo tinha de passar por votação. Eu me senti igual cachorro que corre atrás do carro – quando o carro pára não sabe o que fazer [risos]. Eu não sabia o que fazer. Eu não tinha essa índole...Nunca imaginei que pudesse decidir pela vida de uma pessoa ou mesmo matar alguém...Nós entramos em contato com a direção da organização e nos orientaram a interrogar os fulanos, levantar informações sobre a família deles e fazer ameaças. A gente acabou liberando todos, mas dissemos que se eles não se desligassem da TFP nós íamos matar a mãe deles, que íamos matar os filhos, a esposa. Eu ficava me perguntando: o que é que a família tem a ver com isso? Mas a gente acabou tendo de jogar baixo também. Não foi nada agradável, pelo menos para mim.

Bruno – E sua prisão acontece quando?
Zeza – Um companheiro nosso caiu. E na tortura ele entregou uns nomes, dentre eles o meu. Eu já era um cara fichado, não tinha jeito. Fui preso em questão de horas.

Lucas – Você foi torturado também?
Zeza – Fui. Tomei uns choques na bunda, na cabeça do pau, fiquei surdo de um ouvido, quebraram todos os meus dentes... Mas até que eu não apanhei muito, não.

Bruno – Não? Imagina se apanhasse...
Zeza – Perto do que se costumava fazer eu até que tive sorte. Tinha gente que ficava pendurada dois dias em pau-de-arara. É uma dor que ninguém suporta. Ninguém é macho para agüentar dois dias de pau-de-arara. Hoje eu falo sobre a tortura com mais tranqüilidade, mas até uns anos atrás eu tinha uma certa reserva em falar sobre isso porque aquilo me incomodava muito. E raiva não é um sentimento bom pra você sentir, né?

Lucas – Quanto tempo você ficou preso e como você saiu da prisão?
Zeza – Eu fiquei preso oito meses na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Saí porque meu pai me encontrou. Ele tinha certa influência na polícia e conseguiu negociar a minha libertação. Assim que eu saio da prisão vou para Guaxupé, em Minas Gerais. Fiquei escondido um tempo por lá.

Bruno – Ficou escondido onde?
Zeza – Numa fazenda. Eu arrumei emprego de fachada, fui ser lavrador. Foi muito gostoso, porque eu saí daquele clima desgraçado de guerra e passei quase um ano na roça, longe de tudo. Foi aí que eu aprendi a gostar de viola caipira. Eu passava as madrugadas no meio do mato, ouvindo a cantoria dos bóias-frias. Foi uma experiência inesquecível.

Lucas – E quando você sai da fazenda, vai para onde?
Zeza – Vou para Bauru, onde arrumo emprego de músico no puteiro da Eny, que era muito famoso. Lá eu conheço a Tânia. O nome verdadeiro dela era Antônia Lobo, gerente da casa. Pouco tempo depois nós nos casamos. Já estamos em 1970, certo?

Bruno – E quando você volta para Campinas?

Zeza – Volto pra Campinas nessa época, 1971, por aí. Essa companheira morre num acidente de carro, em Goiás. Eu fico muito deprimido. Arrumo emprego no jornal. Volto a escrever. Eu sentia uma necessidade muito grande de escrever. Nessa época não sentia vontade de falar, só escrever, escrever, escrever...

Lucas – Você não teve vontade de voltar para a luta armada?
Zeza – [pausa longa] Nessa época a Ditadura já tinha conseguido matar o Mariguella, o Lamarca já tinha ido também, a guerrilha do Araguaia estava eliminada. Os nossos líderes revolucionários tinham sido assassinados e os intelectuais capitularam, fugiram para a Eu-ropa e foram dar aula na Sourbonne [risos].

Lucas – Você acha que outro Golpe militar é possível no Brasil?
Zeza – A gente nunca pode descartar essa possibilidade, mas hoje é mais difícil. Hoje a sociedade está mais organizada. Se naquela época tivesse a internet eu acho que os militares não teriam conseguido dar o Golpe.



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