parte III
Foi essa convivência com os mais velhos que me amadureceu tão cedo. O engraçado é que, hoje, eu procuro me aproximar dos mais jovens.
Bruno – Você tinha quantos anos na época do golpe?
Zeza – Eu já tinha 18 anos.
Bruno – E já tinha consciência política? Já sabia o que estava se passando no Brasil?
Zeza – Já. Mesmo porque eu andava com os mais velhos. Não conseguia conviver com a minha turminha, aquela conversinha me cansava. Lia-se muito na minha casa, eu sempre gostei de ler. E quando os amigos do meu pai iam lá em casa eu gostava de prestar atenção nas conversas, às vezes me intrometia. Eu acho que foi essa convivência com os mais velhos que me amadureceu tão cedo. O engraçado é que, hoje, eu procuro me aproximar dos mais jovens.
Lucas – E por quê?
Zeza – É que os mais velhos, hoje, não podem acrescentar mais nada para mim. Os mais novos é que acrescentam. A geração de vocês é uma geração mais politizada do que a minha.
Bruno – Você acha isso mesmo, Zeza?
Zeza – Acho, acho. Vocês são muito melhores do que nós. Vocês nem fazem idéia.
Bruno – É uma afirmação interessante. Hoje se diz muito que nossa geração é alienada, que nós não temos mais utopias, que estamos cada vez mais individualistas.
Zeza – Pelo contrário. Vocês são muito mais organizados. A nossa diferença é que tivemos que crescer muito rápido, enfrentar uma ditadura não é mole. Mas eu acho que vocês estão bem mais preparados do que nós para enfrentar uma situação como aquela.
Lucas – Talvez a gente tenha uma visão muito romântica dos anos 60 e 70. Mas havia debate político nas universidades, a juventude se posicionava. Hoje a gente vê uma apatia generalizada...
Zeza – Vocês romantizam demais, sim. Quem se interessava por política era uma minoria, quem foi para a luta armada foi uma pequena vanguarda da sociedade. Vanguardas sempre vão existir. O fato é que, no meu tempo, nós perdíamos muito tempo dentro da igreja. Porque para entrar no cinema, no Liceu, a gente tinha de assistir a missa da manhã, da tarde e da noite. Quem ia às missas ganhava a "boa nota", que era um papel que comprovava que você tinha ido às missas. Só com a "boa nota" nas mãos a gente podia entrar no cinema ou jogar futebol no colégio. Era um horror. Nós fomos criados com um temor muito grande de Deus. Os jovens do meu tempo foram criados sob o peso da culpa. O que eles queriam era comprar a nossa fé.
Bruno – E conseguiram? Você acredita em Deus?
Zeza – Não.
Bruno – Você nunca foi coroinha? Todos os caras da sua idade foram coroinhas...[risos]
Zeza – Fui, claro que fui...[risos]. E sobre isso tenho uma história interessantíssima. Em 1958 eu era coroinha e tinha que ajudar na missa do Liceu. Ocorre que uma dessas missas calhou de cair bem no dia da final da Copa do Mundo da Suécia. Vocês imaginem a situação: eu, um menino louco por futebol, o Brasil na final do campeonato e eu tendo de ajudar padre na missa, vestir batina e o cacete. Uma tremenda sacanagem. Deu cinco minutos em mim e eu resolvi sair de fininho pelos fundos da igreja, pulei o muro do Liceu, escondi a batina no jardim e saí correndo em direção da minha casa. Só que no caminho, escutei um gol no rádio, estava um silêncio na cidade e eu parei. Saiu um senhor na porta de uma casa e eu perguntei quem tinha feito um gol e ele soltou um palavrão. A Suécia tinha marcado o primeiro gol. Aquilo foi a morte pra mim. Eu não sabia o que fazer. Pra mim aquilo tinha sido culpa minha, por ter fugido da missa. Fiquei arrasado. Aí eu já não sabia mais o que fazer, se eu ia pra casa ou se eu voltava pra igreja.
Júnior – E o jogo correndo solto...
Zeza – Pois é. Mas no meio da minha indecisão, vieram os rojões. Uma barulheira infernal. As pessoas saíam das casas gritando que tinha sido gol do Brasil. Aí eu esqueci de Deus e fui correndo pra casa, o Brasil foi campeão e eu soltei um monte de balão verde-e-amarelo. E aquela sensação de culpa eu jurei que não ia ter mais não.
Bruno – Nunca mais se sentiu culpado?
Zeza – Nunca. A partir daquele momento eu comecei a entender uma série de coisas, entre elas que Deus estava pouco se lixando se eu estava na missa ou vendo o jogo na minha casa. Eu só ia à missa pra poder ir ao cinema depois. Pra mim ficou muito claro, muito claro.
Lucas – E no que sua vida mudou quando você se desliga da obrigação religiosa?
Zeza – Quando eu me libertei da culpa, comecei a fazer coisas que nunca havia imaginado. Comecei a beber, a fumar, a andar com todo o tipo de gente. Enfim, caí num mundo sem freios. E comecei a entrar em contato com a realidade do lugar onde eu morava, com a realidade do País.
Bruno – E quais passaram a ser os seus sonhos depois dessa descoberta?
Zeza – Meus sonhos eram iguais ao de qualquer moleque da minha geração: era ter uma calça Lee, um par de keds nos pés e uma camiseta branca dobrada na altura do muque. E o que era isso?
Bruno – Era o James Dean.
Zeza – Justamente. Era o James Dean. Que era o protótipo do rebelde sem causa. Mas depois a gente vai abraçando algumas causas, né? No meu caso começou com o teatro. Como sempre por causa de mulher. Tendo mulher a gente vai atrás, né? A culpa foi de uma menina que era atriz e como eu tinha muita tesão nela, fui fazer teatro.
Lucas – E vocês liam que autores no teatro?
Zeza – Jean-Paul Sartre, Maiakóvsky, Bertold Brecht...Foram estas leituras que me fizeram ver que éramos diferentes dos outros. Porque são autores que tocavam muito a juventude daquela época, que preenchiam um vazio que era próprio da minha geração...
Bruno – Foi nessa época que você deixou o cabelo crescer? Falo isso porque quando eu era criança, lembro-me de ver você na rua, cabeludo, barbudo, violão debaixo do braço...
Zeza – Eu deixei o cabelo crescer para interpretar Tiradentes, numa peça que meu grupo de teatro havia montado. Daí eu gostei do novo visual e fui deixando. Mas o que eu não sabia é que a repressão aos cabeludos também era grande. A moral e os bons costumes não toleravam. Antes de ser preso por causa da luta armada, eu tive passagem na polícia por ser cabeludo [risos].
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