parte II
A luta não durou trinta segundos. Eu nunca tinha beijado a lona. O cara me deu um cruzado, me nocauteou na hora e quebrou meu nariz.
Bruno – E de onde veio o apelido Zeza?
Zeza – Eu devia ter uns 14 anos. Quem me chamou pela primeira vez de Zeza foi uma vizinha japonesa que a gente tinha. O nome dela era Ione e ela não falava nada de português. Como era muito difícil para ela pronunciar meu nome, José Antônio, ela começou a me chamar de Zeza. Era um apelido geralmente dado às mulheres que se chamam Maria José. Mas, na época, eu entendi que era um bom apelido, tendo em vista que os meninos do bairro me chamavam de Tonho Louco, Tonho Doidão...[risos]
Lucas – E por que lhe chamavam de Tonho Louco?
Zeza – Isso foi na época em que eu tocava num quarteto regional, com o Antônio Carlos Faiz, que hoje é um considerado empresário artístico. Nós devíamos ter entre 13 e 14 anos, pois me lembro que chegamos a tocar de calças curtas. A calça era azul marinho, com suspensórios, camisa branca e gravatinha texana.
Lucas – Você se lembra da formação do conjunto?
Zeza – Lembro. Era Antônio Carlos Faiz no acordeão, Ênio no bongô, eu tocava pandeiro e afoxé, e tinha o Zé – eu nunca soube o nome dele completo – que tocava violão elétrico.
Bruno – E vocês tocavam aonde?
Zeza – A gente tocava no programa do Tio Fida, na Rádio Educadora, e no Cine Rádio, num programa aos domingos que se chamava Sapatinho Vazio ou Sapatinho de Cristal, não estou bem lembrado agora. Era um programa dominical promovido pelo jornalista Jolumá Brito, biógrafo de Carlos Gomes, um historiador importante na cidade.
Bruno – E qual era o repertório?
Zeza – Boleros, sambas-canções, tangos... Ou seja, as coisas que tocavam na época.
Bruno – Você ainda não falou sobre o apelido Tonho Louco...
Zeza – Ah, é, eu fiquei dando voltas e não falei... O apelido veio porque eu não media conseqüências...Pra mim, pular do trem em movimento, pegar bonde andando, podia ser a velocidade que fosse, eu pulava mesmo, não tava nem aí. Eu nunca gostei de carro, mas era fascinado por trem e bonde. E eu era muito arrojado, não tinha medo de me machucar. Daí veio o Tonho Louco. Depois, por causa das minhas orelhas de abano, passaram a me chamar de Tonho Oreiudo. Então quando começaram a me chamar de Zeza, eu considerei que, em vista dos outros apelidos, eu tinha que me dar por satisfeito [risos].
Bruno – Antes da entrevista a gente estava falando sobre a quantidade de atividades que você desenvolve em Campinas. Você atua no jornalismo, na música, é militante histórico do PT. O que veio primeiro?
Zeza – A primeira coisa que me bateu fundo mesmo, a partir do momento em que eu descobri que não conseguiria ser jogador de futebol, não foi nem o jornalismo, nem a música, nem a política. A primeira coisa que me tocou a alma foi o boxe. Aí eu comecei a lutar boxe.
Bruno – Fale um pouco dessa experiência no boxe.
Zeza – Eu era fã do Éder Jofre. Por causa dele eu me inscrevi para treinar na Bosch. Eu era peso mosca, mas tinha corpo de peso galo, o que me dava certa vantagem no ringue. Até que um dia eu participei do Troféu Bandeirantes, que era uma competição regional, e fui avançando sem derrotas, batendo em todo mundo. Na semifinal fui enfrentar um japonês de Marília. Um japonês baixinho. Eu subestimei o adversário, achei que seria mais um coitado. Mas o japonês era muito bom. A luta não durou trinta segundos. Eu nunca tinha beijado a lona. O cara me deu um cruzado, me nocauteou na hora e quebrou meu nariz. Foi aí que eu senti o gosto de sangue na boca. Vi que aquilo não era para mim, nunca mais voltei a subir num ringue.
Bruno – Dos ringues ao palco. Você se lembra da sua primeira música?
Zeza – Foi quando eu tinha uns 14 anos de idade; mas eu não sei mais cantar essa música, só lembro do nome: Rosa Azul . Fiz a música depois de ler uma reportagem sobre uns cientistas japoneses que tinham conseguido criar, em laboratório, uma rosa azul. Isso deve ter sido o início das experiências com os cruzamentos genéticos. A idéia da letra era explicar para minha namorada que ela era a rosa azul, que ela era uma flor muito rara.
Lucas – E nos bares, você começa a tocar com que idade?
Zeza – Nos bares comecei a tocar com 16 anos de idade, pois aí eu já tocava bem o violão. Coincidiu com a época em que eu já queria fazer uma música diferente, uma música mais esperta, não queria mais aqueles bolerões. Tudo começou quando eu escutei Bill Harley e seus Cometas. Aí eu descobri que o negócio era por ali, que o negócio era rock'n roll.
Bruno – Você começou pelo rock'n roll?
Zeza – Foi. A invasão cultural já estava acontecendo no Brasil há 10 anos ou mais. A minha geração presenciou a chegada do rock americano e da bossa nova – que foi outra coisa muito louca. Todo mundo querendo tocar guitarra ou imitar o João Gilberto. Enfim, eu era jovem também, curtia tudo isso. Depois vem Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Glauber Rocha, Che Guevara, Golpe militar, imagina a cabeça da gente como ficava. E nessa confusão toda nasce a política, né?
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