parte I

Esse chorinho me marcou muito por conta dessa associação que eu faço com o meu pai, o campo de futebol e a minha infância

Lucas – Zeza, qual seu verdadeiro nome?
Zeza – É José Antônio Siqueira do Amaral.

Lucas – E você nasceu quando?
Zeza – 21 de outubro de 1946.

Bruno – Em Atibaia, não é, Zeza?
Zeza – Em Atibaia.

Bruno – E como era Atibaia naquela época?
Zeza – Não me recordo muito de Atibaia...Eu só me lembro da casa onde eu morava, que era uma daquelas casas antigas, no centro da cidade, com quintal enorme. Eu lembro que a minha mãe fazia galinha ao molho pardo e jogava as tripas da galinha no quintal para os urubus. Eu era muito pequenininho, chegava perto dos urubus e eles não voavam. Lembro ainda de uma prima chamada Lígia. Eu costumo imaginar que ela foi a minha primeira namorada. E lembro também que a minha avó levava a gente pra ver as congadas chegando na cidade, eu ficava quietinho ouvindo o som dos batuques...

Bruno – Você veio de uma família simples?
Zeza – Éramos simples, mas eu não posso dizer que a minha família era humilde. Meu pai era funcionário público e naquela época tinha um bom salário.

Lucas – Como era o nome do seu pai?
Zeza – Era Carlos de Sá. Mas por razões políticas, fugindo do integralismo, ele mudou para Carlos Siqueira do Amaral.

Bruno – E da sua mãe?
Zeza – Aristina Reis do Amaral.

Lucas – Você tinha irmãos?
Zeza – Nós éramos em sete filhos. O oitavo filho veio a nascer em Campinas. Eu era o do meio.

Bruno – Escapou de ser lobisomem...
Zeza – É, escapei de ser lobisomem...[risos]

Bruno – E quando é que você sai de Atibaia e vem para Campinas?
Zeza – Isso foi...

Lucas – Zeza, antes de você responder, deixa eu interromper pra gente não perder o gancho. Seu primeiro contato com a música se deu através das congadas em Atibaia?
Zeza – É, a lembrança das congadas é muito forte...Mas lembro também do meu pai tocan-do violão, lembro da minha irmã cantando, lembro da minha mãe ouvindo rádio. Em casa se ouvia muito rádio. Inclusive tem um chorinho que eu adoro, Delicado , do Waldir Azevedo, que tocava no alto-falante do campo de futebol onde meu pai ia jogar bola, lá em Atibaia. Esse chorinho me marcou muito por conta dessa associação que eu faço com o meu pai, o campo de futebol e a minha infância.

Bruno – Além de funcionário público o teu pai era músico?
Zeza – Ele era baterista de um conjunto de jazz. Era um conjunto de baile, que tocava de tudo. Tudo, menos jazz. [risos].

Bruno – E como vocês vêm para Campinas?
Zeza – Eu devia ter uns três ou quatro anos de idade. Viemos morar na rua José Vilagelim Neto, no bairro Taquaral, número cinco. A casa existe até hoje. Era uma casa simples, bem menor do que aquela que nós tínhamos em Atibaia. O motivo da mudança foi que meu pai era escrivão de polícia e foi transferido para Campinas. Ele achou que seria uma oportunidade de conseguir uma melhoria na carreira e aí ele alugou uma casa aqui em Campinas e trouxe a família.

Lucas – E quais as recordações que você tem desse período?
Zeza – A mais engraçada é que os filhos homens dormiam todos no mesmo quarto, em beliches, e eu era o mijão da família; de madrugada resolvia abrir a torneirinha e molhava todo mundo [risos]. Isso criou uma certa desavença entre os irmãos, ninguém mais queria dormir comigo; então ganhei uma cama só pra mim.




parte II

A luta não durou trinta segundos. Eu nunca tinha beijado a lona. O cara me deu um cruzado, me nocauteou na hora e quebrou meu nariz.

Bruno – E de onde veio o apelido Zeza?
Zeza – Eu devia ter uns 14 anos. Quem me chamou pela primeira vez de Zeza foi uma vizinha japonesa que a gente tinha. O nome dela era Ione e ela não falava nada de português. Como era muito difícil para ela pronunciar meu nome, José Antônio, ela começou a me chamar de Zeza. Era um apelido geralmente dado às mulheres que se chamam Maria José. Mas, na época, eu entendi que era um bom apelido, tendo em vista que os meninos do bairro me chamavam de Tonho Louco, Tonho Doidão...[risos]

Lucas – E por que lhe chamavam de Tonho Louco?
Zeza – Isso foi na época em que eu tocava num quarteto regional, com o Antônio Carlos Faiz, que hoje é um considerado empresário artístico. Nós devíamos ter entre 13 e 14 anos, pois me lembro que chegamos a tocar de calças curtas. A calça era azul marinho, com suspensórios, camisa branca e gravatinha texana.

Lucas – Você se lembra da formação do conjunto?
Zeza – Lembro. Era Antônio Carlos Faiz no acordeão, Ênio no bongô, eu tocava pandeiro e afoxé, e tinha o Zé – eu nunca soube o nome dele completo – que tocava violão elétrico.

Bruno – E vocês tocavam aonde?
Zeza – A gente tocava no programa do Tio Fida, na Rádio Educadora, e no Cine Rádio, num programa aos domingos que se chamava Sapatinho Vazio ou Sapatinho de Cristal, não estou bem lembrado agora. Era um programa dominical promovido pelo jornalista Jolumá Brito, biógrafo de Carlos Gomes, um historiador importante na cidade.

Bruno – E qual era o repertório?
Zeza – Boleros, sambas-canções, tangos... Ou seja, as coisas que tocavam na época.

Bruno – Você ainda não falou sobre o apelido Tonho Louco...
Zeza – Ah, é, eu fiquei dando voltas e não falei... O apelido veio porque eu não media conseqüências...Pra mim, pular do trem em movimento, pegar bonde andando, podia ser a velocidade que fosse, eu pulava mesmo, não tava nem aí. Eu nunca gostei de carro, mas era fascinado por trem e bonde. E eu era muito arrojado, não tinha medo de me machucar. Daí veio o Tonho Louco. Depois, por causa das minhas orelhas de abano, passaram a me chamar de Tonho Oreiudo. Então quando começaram a me chamar de Zeza, eu considerei que, em vista dos outros apelidos, eu tinha que me dar por satisfeito [risos].

Bruno – Antes da entrevista a gente estava falando sobre a quantidade de atividades que você desenvolve em Campinas. Você atua no jornalismo, na música, é militante histórico do PT. O que veio primeiro?
Zeza – A primeira coisa que me bateu fundo mesmo, a partir do momento em que eu descobri que não conseguiria ser jogador de futebol, não foi nem o jornalismo, nem a música, nem a política. A primeira coisa que me tocou a alma foi o boxe. Aí eu comecei a lutar boxe.

Bruno – Fale um pouco dessa experiência no boxe.
Zeza – Eu era fã do Éder Jofre. Por causa dele eu me inscrevi para treinar na Bosch. Eu era peso mosca, mas tinha corpo de peso galo, o que me dava certa vantagem no ringue. Até que um dia eu participei do Troféu Bandeirantes, que era uma competição regional, e fui avançando sem derrotas, batendo em todo mundo. Na semifinal fui enfrentar um japonês de Marília. Um japonês baixinho. Eu subestimei o adversário, achei que seria mais um coitado. Mas o japonês era muito bom. A luta não durou trinta segundos. Eu nunca tinha beijado a lona. O cara me deu um cruzado, me nocauteou na hora e quebrou meu nariz. Foi aí que eu senti o gosto de sangue na boca. Vi que aquilo não era para mim, nunca mais voltei a subir num ringue.

Bruno – Dos ringues ao palco. Você se lembra da sua primeira música?
Zeza – Foi quando eu tinha uns 14 anos de idade; mas eu não sei mais cantar essa música, só lembro do nome: Rosa Azul . Fiz a música depois de ler uma reportagem sobre uns cientistas japoneses que tinham conseguido criar, em laboratório, uma rosa azul. Isso deve ter sido o início das experiências com os cruzamentos genéticos. A idéia da letra era explicar para minha namorada que ela era a rosa azul, que ela era uma flor muito rara.

Lucas – E nos bares, você começa a tocar com que idade?
Zeza – Nos bares comecei a tocar com 16 anos de idade, pois aí eu já tocava bem o violão. Coincidiu com a época em que eu já queria fazer uma música diferente, uma música mais esperta, não queria mais aqueles bolerões. Tudo começou quando eu escutei Bill Harley e seus Cometas. Aí eu descobri que o negócio era por ali, que o negócio era rock'n roll.

Bruno – Você começou pelo rock'n roll?
Zeza – Foi. A invasão cultural já estava acontecendo no Brasil há 10 anos ou mais. A minha geração presenciou a chegada do rock americano e da bossa nova – que foi outra coisa muito louca. Todo mundo querendo tocar guitarra ou imitar o João Gilberto. Enfim, eu era jovem também, curtia tudo isso. Depois vem Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Glauber Rocha, Che Guevara, Golpe militar, imagina a cabeça da gente como ficava. E nessa confusão toda nasce a política, né?




parte III

Foi essa convivência com os mais velhos que me amadureceu tão cedo. O engraçado é que, hoje, eu procuro me aproximar dos mais jovens.

Bruno – Você tinha quantos anos na época do golpe?
Zeza – Eu já tinha 18 anos.

Bruno – E já tinha consciência política? Já sabia o que estava se passando no Brasil?
Zeza – Já. Mesmo porque eu andava com os mais velhos. Não conseguia conviver com a minha turminha, aquela conversinha me cansava. Lia-se muito na minha casa, eu sempre gostei de ler. E quando os amigos do meu pai iam lá em casa eu gostava de prestar atenção nas conversas, às vezes me intrometia. Eu acho que foi essa convivência com os mais velhos que me amadureceu tão cedo. O engraçado é que, hoje, eu procuro me aproximar dos mais jovens.

Lucas – E por quê?
Zeza – É que os mais velhos, hoje, não podem acrescentar mais nada para mim. Os mais novos é que acrescentam. A geração de vocês é uma geração mais politizada do que a minha.

Bruno – Você acha isso mesmo, Zeza?
Zeza – Acho, acho. Vocês são muito melhores do que nós. Vocês nem fazem idéia.

Bruno – É uma afirmação interessante. Hoje se diz muito que nossa geração é alienada, que nós não temos mais utopias, que estamos cada vez mais individualistas.
Zeza – Pelo contrário. Vocês são muito mais organizados. A nossa diferença é que tivemos que crescer muito rápido, enfrentar uma ditadura não é mole. Mas eu acho que vocês estão bem mais preparados do que nós para enfrentar uma situação como aquela.

Lucas – Talvez a gente tenha uma visão muito romântica dos anos 60 e 70. Mas havia debate político nas universidades, a juventude se posicionava. Hoje a gente vê uma apatia generalizada...
Zeza – Vocês romantizam demais, sim. Quem se interessava por política era uma minoria, quem foi para a luta armada foi uma pequena vanguarda da sociedade. Vanguardas sempre vão existir. O fato é que, no meu tempo, nós perdíamos muito tempo dentro da igreja. Porque para entrar no cinema, no Liceu, a gente tinha de assistir a missa da manhã, da tarde e da noite. Quem ia às missas ganhava a "boa nota", que era um papel que comprovava que você tinha ido às missas. Só com a "boa nota" nas mãos a gente podia entrar no cinema ou jogar futebol no colégio. Era um horror. Nós fomos criados com um temor muito grande de Deus. Os jovens do meu tempo foram criados sob o peso da culpa. O que eles queriam era comprar a nossa fé.

Bruno – E conseguiram? Você acredita em Deus?
Zeza – Não.

Bruno – Você nunca foi coroinha? Todos os caras da sua idade foram coroinhas...[risos]
Zeza – Fui, claro que fui...[risos]. E sobre isso tenho uma história interessantíssima. Em 1958 eu era coroinha e tinha que ajudar na missa do Liceu. Ocorre que uma dessas missas calhou de cair bem no dia da final da Copa do Mundo da Suécia. Vocês imaginem a situação: eu, um menino louco por futebol, o Brasil na final do campeonato e eu tendo de ajudar padre na missa, vestir batina e o cacete. Uma tremenda sacanagem. Deu cinco minutos em mim e eu resolvi sair de fininho pelos fundos da igreja, pulei o muro do Liceu, escondi a batina no jardim e saí correndo em direção da minha casa. Só que no caminho, escutei um gol no rádio, estava um silêncio na cidade e eu parei. Saiu um senhor na porta de uma casa e eu perguntei quem tinha feito um gol e ele soltou um palavrão. A Suécia tinha marcado o primeiro gol. Aquilo foi a morte pra mim. Eu não sabia o que fazer. Pra mim aquilo tinha sido culpa minha, por ter fugido da missa. Fiquei arrasado. Aí eu já não sabia mais o que fazer, se eu ia pra casa ou se eu voltava pra igreja.

Júnior – E o jogo correndo solto...
Zeza – Pois é. Mas no meio da minha indecisão, vieram os rojões. Uma barulheira infernal. As pessoas saíam das casas gritando que tinha sido gol do Brasil. Aí eu esqueci de Deus e fui correndo pra casa, o Brasil foi campeão e eu soltei um monte de balão verde-e-amarelo. E aquela sensação de culpa eu jurei que não ia ter mais não.

Bruno – Nunca mais se sentiu culpado?
Zeza – Nunca. A partir daquele momento eu comecei a entender uma série de coisas, entre elas que Deus estava pouco se lixando se eu estava na missa ou vendo o jogo na minha casa. Eu só ia à missa pra poder ir ao cinema depois. Pra mim ficou muito claro, muito claro.

Lucas – E no que sua vida mudou quando você se desliga da obrigação religiosa?
Zeza – Quando eu me libertei da culpa, comecei a fazer coisas que nunca havia imaginado. Comecei a beber, a fumar, a andar com todo o tipo de gente. Enfim, caí num mundo sem freios. E comecei a entrar em contato com a realidade do lugar onde eu morava, com a realidade do País.

Bruno – E quais passaram a ser os seus sonhos depois dessa descoberta?
Zeza – Meus sonhos eram iguais ao de qualquer moleque da minha geração: era ter uma calça Lee, um par de keds nos pés e uma camiseta branca dobrada na altura do muque. E o que era isso?

Bruno – Era o James Dean.
Zeza – Justamente. Era o James Dean. Que era o protótipo do rebelde sem causa. Mas depois a gente vai abraçando algumas causas, né? No meu caso começou com o teatro. Como sempre por causa de mulher. Tendo mulher a gente vai atrás, né? A culpa foi de uma menina que era atriz e como eu tinha muita tesão nela, fui fazer teatro.

Lucas – E vocês liam que autores no teatro?
Zeza – Jean-Paul Sartre, Maiakóvsky, Bertold Brecht...Foram estas leituras que me fizeram ver que éramos diferentes dos outros. Porque são autores que tocavam muito a juventude daquela época, que preenchiam um vazio que era próprio da minha geração...

Bruno – Foi nessa época que você deixou o cabelo crescer? Falo isso porque quando eu era criança, lembro-me de ver você na rua, cabeludo, barbudo, violão debaixo do braço...
Zeza – Eu deixei o cabelo crescer para interpretar Tiradentes, numa peça que meu grupo de teatro havia montado. Daí eu gostei do novo visual e fui deixando. Mas o que eu não sabia é que a repressão aos cabeludos também era grande. A moral e os bons costumes não toleravam. Antes de ser preso por causa da luta armada, eu tive passagem na polícia por ser cabeludo [risos].




parte IV

Em 1968 eu estava responsável por levar armas e explosivos de Campinas á São Paulo. Eu ia de ônibus e levava o material dentro da caixa do violão.

Bruno – E como é que você entra para a luta armada?
Zeza – Isso foi em 1967. Eu era diretor do grêmio estudantil do Ataliba Nogueira e um dia baixou polícia no colégio e me levou. Fui interrogado por um sargento da escola de cadetes, que ficou o tempo todo enchendo o meu saco por causa do meu cabelo, que eu era viado, coisa e tal. E eu disse pra ele não se incomodar porque o cabelo era meu e ninguém tinha nada a ver com isso. Aí ele me virou um tapa na cara. Foi um belo de um tapa. E eu agüentei firme. O boxe ajuda nessas horas porque você aprende a tomar porrada e não sentir raiva. Mas aquilo me doeu na alma. Pensei comigo: por quê um cara desse me deu um tapa? Com que direito esse filho da puta me dá um tapa na cara?

Lucas – Mas você ainda não tinha envolvimento com os grupos armados?
Zeza – Ainda não. Fui liberado no mesmo dia. Pouco tempo depois um vizinho meu me chamou num canto pra conversar. Ele ficou sabendo do tapa que eu tomei e veio falar comigo. Ele abriu o jogo, disse que estava precisando de gente para engrossar o corpo de uma organização revolucionária e que eu era bem articulado, que tinha muitos contatos, que sabia conversar. Eu acabei entrando. Nem foi uma coisa extremamente calculada. Quando dei por mim já estava envolvido até o pescoço. Daí não teve volta. Numa situação em que a liberdade do seu país está em risco você tem que fazer alguma coisa. Se você tem alguma consciência e amor pela pátria, você faz. Não é uma decisão tão racional quanto dizia a esquerda. Muita gente acabava entrando por paixão mesmo.

Lucas – Em 68 você já estava andando armado...
Zeza – Já. Em 68 eu estava responsável por levar armas e explosivos de Campinas para São Paulo. Eu ia de ônibus e levava o material dentro da caixa do violão. Eu me valia da condição de músico para transitar pela rodoviária sem despertar muita suspeita. Nessa época eu participei também de alguns assaltos a carros-fortes.

Júnior – Você fazia parte de que organização?
Zeza – Eu fazia parte da ALN [Aliança Libertadora Nacional], do Carlos Mariguella.

Bruno – E como foi essa experiência de assaltar carro-forte?
Zeza – Eu dirigia o carro e às vezes dava cobertura, ou seja, fazia uma segurança discreta, um pouco afastado do local. Teve um dia que nosso grupo roubou um carro-forte, em São Paulo, achando que ia se dar bem. Usamos dinamite para abrir a porta. Quando conseguimos abrir o carro, o que é que a gente encontra lá dentro? Maconha. Centenas de tijolos de maconha. Ao invés de dinheiro, maconha. Agora eu me pergunto: o que é que a maconha estava fazendo dentro do carro-forte de um banco?

Bruno – E o que vocês fizeram? Fumaram tudo?
Zeza – Não, pô! [risos] Aliás, maconha baixa a minha pressão, não gosto. Nós enviamos uma carta anônima para um jornal, dizendo onde eles poderiam encontrar o material. Não soube o que eles fizeram com aquilo...

Lucas – Houve uma situação em que teve de atirar para matar?
Zeza – Não. Mas vivi uma situação-limite, onde quase tivemos de votar pela eliminação de uns sujeitos. Eram uns desgraçados que a TFP [ Tradição, Família e Propriedade, organi-zação católica de extrema-direita ] conseguiu infiltrar no movimento. Eles foram descobertos porque nós também tínhamos um companheiro infiltrado na organização deles. Nós os enquadramos num prostíbulo. Aliás, local perfeito para encontrar militantes da TFP, hein? [risos].

Bruno – E o que aconteceu depois?
Zeza – Nós os levamos para um sítio afastado. A maioria queria matar logo, mas tinha uns companheiros que eram contra. A vontade geral era eliminar esse povo, mas tudo tinha de passar por votação. Eu me senti igual cachorro que corre atrás do carro – quando o carro pára não sabe o que fazer [risos]. Eu não sabia o que fazer. Eu não tinha essa índole...Nunca imaginei que pudesse decidir pela vida de uma pessoa ou mesmo matar alguém...Nós entramos em contato com a direção da organização e nos orientaram a interrogar os fulanos, levantar informações sobre a família deles e fazer ameaças. A gente acabou liberando todos, mas dissemos que se eles não se desligassem da TFP nós íamos matar a mãe deles, que íamos matar os filhos, a esposa. Eu ficava me perguntando: o que é que a família tem a ver com isso? Mas a gente acabou tendo de jogar baixo também. Não foi nada agradável, pelo menos para mim.

Bruno – E sua prisão acontece quando?
Zeza – Um companheiro nosso caiu. E na tortura ele entregou uns nomes, dentre eles o meu. Eu já era um cara fichado, não tinha jeito. Fui preso em questão de horas.

Lucas – Você foi torturado também?
Zeza – Fui. Tomei uns choques na bunda, na cabeça do pau, fiquei surdo de um ouvido, quebraram todos os meus dentes... Mas até que eu não apanhei muito, não.

Bruno – Não? Imagina se apanhasse...
Zeza – Perto do que se costumava fazer eu até que tive sorte. Tinha gente que ficava pendurada dois dias em pau-de-arara. É uma dor que ninguém suporta. Ninguém é macho para agüentar dois dias de pau-de-arara. Hoje eu falo sobre a tortura com mais tranqüilidade, mas até uns anos atrás eu tinha uma certa reserva em falar sobre isso porque aquilo me incomodava muito. E raiva não é um sentimento bom pra você sentir, né?

Lucas – Quanto tempo você ficou preso e como você saiu da prisão?
Zeza – Eu fiquei preso oito meses na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Saí porque meu pai me encontrou. Ele tinha certa influência na polícia e conseguiu negociar a minha libertação. Assim que eu saio da prisão vou para Guaxupé, em Minas Gerais. Fiquei escondido um tempo por lá.

Bruno – Ficou escondido onde?
Zeza – Numa fazenda. Eu arrumei emprego de fachada, fui ser lavrador. Foi muito gostoso, porque eu saí daquele clima desgraçado de guerra e passei quase um ano na roça, longe de tudo. Foi aí que eu aprendi a gostar de viola caipira. Eu passava as madrugadas no meio do mato, ouvindo a cantoria dos bóias-frias. Foi uma experiência inesquecível.

Lucas – E quando você sai da fazenda, vai para onde?
Zeza – Vou para Bauru, onde arrumo emprego de músico no puteiro da Eny, que era muito famoso. Lá eu conheço a Tânia. O nome verdadeiro dela era Antônia Lobo, gerente da casa. Pouco tempo depois nós nos casamos. Já estamos em 1970, certo?

Bruno – E quando você volta para Campinas?

Zeza – Volto pra Campinas nessa época, 1971, por aí. Essa companheira morre num acidente de carro, em Goiás. Eu fico muito deprimido. Arrumo emprego no jornal. Volto a escrever. Eu sentia uma necessidade muito grande de escrever. Nessa época não sentia vontade de falar, só escrever, escrever, escrever...

Lucas – Você não teve vontade de voltar para a luta armada?
Zeza – [pausa longa] Nessa época a Ditadura já tinha conseguido matar o Mariguella, o Lamarca já tinha ido também, a guerrilha do Araguaia estava eliminada. Os nossos líderes revolucionários tinham sido assassinados e os intelectuais capitularam, fugiram para a Eu-ropa e foram dar aula na Sourbonne [risos].

Lucas – Você acha que outro Golpe militar é possível no Brasil?
Zeza – A gente nunca pode descartar essa possibilidade, mas hoje é mais difícil. Hoje a sociedade está mais organizada. Se naquela época tivesse a internet eu acho que os militares não teriam conseguido dar o Golpe.




parte V

Eu estou longe de ser um escritor. Eu acho que não teria saco para escrever um livro.

Bruno – Eu queria mudar um pouco o rumo da conversa e falar um pouco da tua relação com a literatura, sendo você um cronista. Quando é que você descobriu que tinha talento para escrever?
Zeza – Eu nem sabia que eu fazia crônica... Eu apenas escrevo...

Bruno – Você escreve crônicas...
Zeza –Eu apenas reporto a coisa. Registro as coisas que eu vejo, as coisas que eu sinto. Mas eu estou longe de ser um escritor. Eu acho que não teria saco para escrever um livro. Infelizmente eu não tenho esse dom. Já estou satisfeito com os autores que nós temos aí. Eu não somaria nada...

Bruno – Zeza, a sua modéstia me irrita. Quais são os seus autores preferidos?
Zeza
– Eu não tenho... Eu não sei... Eu adoro a Bíblia... É um grande livro. Em todos os sentidos [risos]. Não tenho um livro ou um autor preferido... Eu gostava muito do Stanislaw Ponte Preta, do Fernando Sabino, do Antônio Maria. O Lourenço Diaféria eu achava maravilhoso. Mas eu leio de tudo. Aliás, adoraria que o papel higiênico viesse com alguma coisa escrita. Seria perfeito, não acha?

Bruno – Seria uma literatura de merda...
Zeza – [risos] Mas sabe de uma coisa? Esta é uma puta idéia! Mas ninguém me leva a sério...

Lucas – Você já escrevia antes de entrar para o jornal?
Zeza – Profissionalmente não. Eu fui contratado para fazer crítica de música. A primeira que eu fiz foi em cima de um disco da Simone, um disco belíssimo que eu nunca mais encontrei. Um no qual ela gravou só frevos. Só que frevo tocado feito marcha-rancho: [cantando] Felinto Pedro Salgado... Lindo, lindo. Mas a crônica veio naturalmente, porque na própria crítica eu já colocava uma linguagem muito pessoal, muito próxima do que o Bruno faz hoje, com essa coluna de botecos que ele tem.

Bruno – Zeza, eu já disse isso pra você, mas quero deixar registrado aqui nesta entrevista. Quando eu comecei no jornalismo, você era minha maior referência.
Zeza – Eu também já falei que sou seu fã, queria que isto ficasse registrado também [risos].

Lucas – Ih... Pintou um clima na conversa...
Zeza – Mas é verdade [risos]. A crônica é o poder de síntese. Quanto menor, melhor. Mas não é fácil, não. O espaço do jornal sempre foi limitador.

Lucas – O quanto você depende dessa rotina de escrever todos os dias?
Zeza – Financeiramente falando?

Lucas – Existencialmente...
Zeza – Eu não vivo sem escrever. Não entra na minha cabeça ficar sem escrever.

Bruno – Você prefere a crônica ou a música?
Zeza
– As duas, né? Tem muito de crônica nas minhas músicas e muito de música nas minhas crônicas.

Bruno – Eu queria que você contasse a história de uma música sua, que, aliás, é a minha preferida. No bairro da minha infância se falava muito num bandido conhecido por Diabo Loiro. Quando eu descobri que você tinha feito uma música em homenagem a ele, fiquei muito feliz. Porque o Diabo Loiro faz parte das minhas recordações mais antigas...
Zeza – Essa música foi feita em 1971, se não me engano. Diabo Loiro foi o último bandido romântico que nós tivemos. Não consta que tenha matado ninguém à traição, só roubava bancos e joalherias. Era um lorde, além de muito inteligente. Certo dia, por volta de 1974, eu estou no City Bar e sou abordado por dois caras armados. Eram os seguranças dele. Perguntaram se eu era o Zeza Amaral e eu confirmei. Aí apareceu o Diabo, puxou a cadeira, sentou-se e disse: "Fiquei sabendo que você fez uma música pra mim. Eu queria que você me mostrasse". Eu estava sem violão e ele disse que não precisava, que eu podia cantar à capela mesmo. Aí eu cantei, né? "Gostei. Legal essa música, obrigado", ele falou e foi embora. Fiquei extremamente honrado com a opinião do Diabo Loiro. Depois disso nós fica-mos amigos.

Bruno – Corrija se eu estiver errado, mas você ganhou o primeiro Prêmio Sharp de MPB, em 1987, certo?
Zeza – Foi em 1986. O LP se chamava Clareia e contou com os arranjos do Paulo Pugliesi. Ele já vinha trabalhando comigo há quase quatro anos e nessa ocasião o disco ganhou o prêmio de melhor arranjo. Mas acabou não indo pra frente porque logo depois o departamento fonográfico da 3M fechou.

Bruno – E fechou por qual motivo?
Zeza – Má administração. Que na verdade é eufemismo de roubalheira. Então a 3M fechou e o acervo da gravadora foi vendido pra Continental e hoje está nas mãos da Warner Music, que detém os direitos, inclusive a fita master do meu disco.

Lucas – E você não tem mais direitos sobre o teu próprio disco?
Zeza – Não tenho... Existe uma lei que me permite fazer este resgate. Mas isso daria muito trabalho e eu não quero esquentar a cabeça com isso. Compositores da minha conduta profissional são despretensiosos em relação ao estrelato.

Júnior – Você não pensa em gravar um CD?

Zeza – Meu próximo passo é um show que estou preparando para este mês, que se chama Gafieira Brasil. Nele vou reunir samba, samba-canção, samba de breque, xote, tango, bolero, valsa, moda de viola, enfim, vou explorar várias sonoridades de bandolim, de cavaquinho, de violão sete cordas, de sanfona, de percussão. Um negócio bem brasileiro mesmo.

Lucas – Zeza, você é militante histórico do PT, nunca escondeu isso de ninguém. Como é que você analisa o desempenho desse governo que aí está? O que mudou do Fernando Henrique para o Lula?
Zeza – [pausa] O governo Lula é um bundão sarado. O governo do FHC, como todo governo neoliberal, era um bundão meio flácido e cheio de marcas de talco [risos]. O governo Lula é um bundão de operário: sarado, musculoso. Mas não deixa de ser bundão, né?

Bruno – Bom, pra terminar a entrevista, eu quero fazer uma pergunta que para mim significa muito. Você continua sendo socialista? E em que tipo de socialismo você acredita?
Zeza – [pausa] Eu acho que estou voltando às minhas raízes, ideologicamente falando. O [ jornalista e escritor ] Carlos Heitor Cony, disse recentemente que não é mais comunista nem capitalista, mas apenas um anarquista triste. Eu, ao contrário, me sinto hoje um anarquista muito alegre. E estou me sentindo muito bem com isso.



 

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