parte I

Esse chorinho me marcou muito por conta dessa associação que eu faço com o meu pai, o campo de futebol e a minha infância

Lucas – Zeza, qual seu verdadeiro nome?
Zeza – É José Antônio Siqueira do Amaral.

Lucas – E você nasceu quando?
Zeza – 21 de outubro de 1946.

Bruno – Em Atibaia, não é, Zeza?
Zeza – Em Atibaia.

Bruno – E como era Atibaia naquela época?
Zeza – Não me recordo muito de Atibaia...Eu só me lembro da casa onde eu morava, que era uma daquelas casas antigas, no centro da cidade, com quintal enorme. Eu lembro que a minha mãe fazia galinha ao molho pardo e jogava as tripas da galinha no quintal para os urubus. Eu era muito pequenininho, chegava perto dos urubus e eles não voavam. Lembro ainda de uma prima chamada Lígia. Eu costumo imaginar que ela foi a minha primeira namorada. E lembro também que a minha avó levava a gente pra ver as congadas chegando na cidade, eu ficava quietinho ouvindo o som dos batuques...

Bruno – Você veio de uma família simples?
Zeza – Éramos simples, mas eu não posso dizer que a minha família era humilde. Meu pai era funcionário público e naquela época tinha um bom salário.

Lucas – Como era o nome do seu pai?
Zeza – Era Carlos de Sá. Mas por razões políticas, fugindo do integralismo, ele mudou para Carlos Siqueira do Amaral.

Bruno – E da sua mãe?
Zeza – Aristina Reis do Amaral.

Lucas – Você tinha irmãos?
Zeza – Nós éramos em sete filhos. O oitavo filho veio a nascer em Campinas. Eu era o do meio.

Bruno – Escapou de ser lobisomem...
Zeza – É, escapei de ser lobisomem...[risos]

Bruno – E quando é que você sai de Atibaia e vem para Campinas?
Zeza – Isso foi...

Lucas – Zeza, antes de você responder, deixa eu interromper pra gente não perder o gancho. Seu primeiro contato com a música se deu através das congadas em Atibaia?
Zeza – É, a lembrança das congadas é muito forte...Mas lembro também do meu pai tocan-do violão, lembro da minha irmã cantando, lembro da minha mãe ouvindo rádio. Em casa se ouvia muito rádio. Inclusive tem um chorinho que eu adoro, Delicado , do Waldir Azevedo, que tocava no alto-falante do campo de futebol onde meu pai ia jogar bola, lá em Atibaia. Esse chorinho me marcou muito por conta dessa associação que eu faço com o meu pai, o campo de futebol e a minha infância.

Bruno – Além de funcionário público o teu pai era músico?
Zeza – Ele era baterista de um conjunto de jazz. Era um conjunto de baile, que tocava de tudo. Tudo, menos jazz. [risos].

Bruno – E como vocês vêm para Campinas?
Zeza – Eu devia ter uns três ou quatro anos de idade. Viemos morar na rua José Vilagelim Neto, no bairro Taquaral, número cinco. A casa existe até hoje. Era uma casa simples, bem menor do que aquela que nós tínhamos em Atibaia. O motivo da mudança foi que meu pai era escrivão de polícia e foi transferido para Campinas. Ele achou que seria uma oportunidade de conseguir uma melhoria na carreira e aí ele alugou uma casa aqui em Campinas e trouxe a família.

Lucas – E quais as recordações que você tem desse período?
Zeza – A mais engraçada é que os filhos homens dormiam todos no mesmo quarto, em beliches, e eu era o mijão da família; de madrugada resolvia abrir a torneirinha e molhava todo mundo [risos]. Isso criou uma certa desavença entre os irmãos, ninguém mais queria dormir comigo; então ganhei uma cama só pra mim.



 
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