parte IV

Eu acho que ponho na pintura um pouco desta vontade de que a vida das pessoas seja melhor.

Bruno – Você mora aqui no ateliê?
Egas – Eu vivo onde estão minhas telas, minhas tintas. Sempre foi assim. Se eu tenho que viajar, levo as tintas na mala. Se sobrar espaço, eu levo as roupas. Se estiver frio, azar.

Bruno – Você acredita em Deus?
Egas – [Pausa]. Às vezes eu tenho certeza que eu acredito e às vezes eu tenho certeza que não.

Lucas – De que maneira você lida com esse conflito? Ele aparece em sua obra?
Egas – Na minha obra não aparece nenhum tipo de preocupação religiosa. Com o destino do homem, sim. A minha pintura sempre foi ligada ao destino do homem.

Bruno – Pintar pode ser uma maneira de se colocar no lugar de Deus?
Egas – Não sei. Eu gosto muito das pessoas. Eu quero que as coisas dêem certos para elas. Meu pai me criticava muito, dizia que eu era o único filho que não ia à missa, que não freqüentava igreja, que era ateu; mas eu amei mais as pessoas do que os meus próprios irmãos, que eram religiosos. Talvez exista esta relação que você falou. Eu acho que ponho na pintura um pouco desta vontade de que a vida das pessoas seja melhor, menos difícil, menos medíocre.

Bruno – Você pertence à alguma escola de pintura?
Egas – Não sou filiado a nenhuma escola de pintura, nem nunca tive preocupação de pertencer à qualquer movimento. Não tenho nem mesmo preocupação se um quadro meu tem unidade com o outro, porque eu sei que tem.

Lucas – Qual seu pintor preferido?
Egas – É impossível ter um pintor preferido. Mas há pintores que em todas as listas devem constar, como Vincent Van Gogh, onde a pintura e a vida coincidem, onde a tragédia pessoal e a vida contida no trabalho fazem com que a obra tremule às suas costas, fazem com que você sinta a presença do quadro mesmo sem vê-lo; isto é uma coisa que poucos artistas conseguem. E também tivemos Picasso, Mogliani, Kandinsky, que fizeram parte da última geração de grandes pintores.

Lucas – Você coloca Cândido Portinari entre os grandes?
Egas – Portinari...Quando vi pela primeira vez o Tríptico dos Retirantes , que para mim é a obra-prima da pintura brasileira, eu era criança e fiquei com medo, aquilo teve um grande impacto na minha vida.

Bruno – Qual era a orientação política da sua família?
Egas – Na minha família tinha gente de todos os lados. Tinha os burgueses e os marginais, os legais e os chatos. Os meus primos baianos eram burguesíssimos. O burguês baiano é mais burguês do que os outros [risos]. E nós éramos os desleixados, os que não sabiam se vestir, os que não tinham vida social.

Bruno – Você está dizendo que se seus pais estivessem vivos eles não sairiam na coluna social.
Egas – Nós nunca demos valor ás festas da sociedade. Nem minha mãe, que era tida como a mulher mais bonita da cidade. Todo mundo queria que meu pai levasse a minha mãe aos eventos, mas ela não queria. Ela só ia ao teatro, ela conhecia de perto as atrizes, a Tônia [Carrero], o Paulo Autran, a Fernanda [Montenegro]. Minha mãe não era fútil, era culta.



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