parte I

Fui expulso do colégio por rebeldia; mas eu tinha razão. Aquele colégio era opressor demais.

Bruno - Egas, como diria o filósofo, vamos começar do começo. Quem são seus pais e onde você nasceu?
Egas - O nome do meu pai era Francisco Benjamim de Souza Filho, nascido em Salvador, Bahia. Ele era médico urologista e intelectual, um homem que falava francês muito bem e vivia cercado de livros. Marcel Proust só era lido na minha casa, onde havia uma biblioteca imensa. Minha mãe era Maria de Lourdes Sampaio, também nascida na Bahia. Ela odiava o nome que tinha, por isso todo mundo a chamava de Lilica, inclusive os filhos. Mas não era só do nome que ela não gostava; quando falavam que ela tinha sangue espanhol, ela ficava uma arara: "Eu sou baiana de corpo e alma!". [risos]. Porque você sabe que quem nasce na Bahia, ama a Bahia. Quem não nasce ama, imagina quem nasce? [risos].

Lucas - Qual era a descendência de sua família?
Egas - Por parte de mãe, a família era todinha hispano-portuguesa. Mamãe era linda, linda com aqueles olhos turquesas...

Lucas - E ela se dedicava a quê?
Egas - Ela fez Belas Artes na Bahia. Foi uma grande influência para mim, sem dúvida nenhuma.

Bruno - E você? Onde nasceu e como foi a sua infância?
Egas - Eu nasci em São Paulo, mas fui criado em Campinas. Não vou dizer o ano senão vocês descobrem a minha idade [risos]. As recordações mais antigas da infância são de mamãe monografando as toalhas do Centro de Saúde de Campinas, onde meu pai foi diretor durante vinte anos consecutivos. Independente do trabalho que ele exercia no consultório, ele desenvolveu um trabalho muito grande sobre doenças contagiosas no Brasil. Por conta disso, certa vez, ele travou um debate violento com Jânio Quadros; chamou Jânio de sifilítico porque ele teria dito que a sífilis estava erradicada e o meu pai respondeu: "talvez erradicada pelo seu organismo". [risos].

Lucas - Mas e a sua educação? Como era o ambiente na tua casa? Porque a gente acredita que você tenha tido uma educação voltada para as artes, certo?
Egas - Eu venho de uma família de nove irmãos. Nós líamos muito, o livro passava da mão do meu pai para a mão da minha mãe, cada um lia um trecho, daí passava para o meu irmão Benjamim, para minha irmã Rosita, para mim, até chegar nas mãos do irmão caçula, mais ou menos na ordem cronológica; mas todo mundo tinha que ler um trecho. Lembro que começamos com Mil e Uma Noites , acho que foi o primeiro livro que eu li na vida. E às vezes também se cantava na varanda, tinha uma tia que era cantora lírica, cantava trechos de Carmem ...

Júnior - Onde ficava essa casa?
Egas - Esta casa era famosa. Ficava na Rua Cônego Néri, 491. Mas antes nós moramos na Avenida Barão de Itapura, 1504.

Júnior - Você chegou a morar na Bahia?
Egas - Eu fui à Bahia como castigo. Eu fazia ginásio no Culto à Ciência e fui terminar o curso normal na Bahia. Fui expulso do colégio por rebeldia; mas eu tinha razão. Aquele colégio era opressor demais. Ao mesmo tempo eu era ótimo aluno e era péssimo. Dependia da matéria, entendeu? Ao mesmo tempo eu era doce e era rebelde. Só estudava as coisas que eu gostava e queria. Mesmo assim eu fui o aluno mais jovem a escrever no jornal do Culto à Ciência. Com onze anos de idade eu já escrevia no jornal do colégio.

Bruno - E o que você escrevia?
Egas - Eu escrevia ficção. Uma carta minha era ficção, um bilhete meu era ficção. Até hoje é assim. Eu vou dar um recado e trago uma imagem, entendeu? Na Europa isso é um problema, porque você usa uma imagem o cara quer que você explique. Você conta uma piada na Europa e ninguém entende, é outra lógica.

 



parte II

Até hoje não entendo porque estou em Campinas.

Lucas - Onde você ficou no tempo de Bahia?
Egas - Eu fiquei inicialmente na casa da minha avó. Tá pronto o café. Vocês querem xícara grande ou pequena?

Bruno - Pra mim, pequena.
Egas - Alguém quer grande?

Bruno - Não, grande é o Lucas que gosta.
Egas - Você gosta de grande, Lucas? Você vai se dar bem comigo, hein? [risos]

Lucas - Vamos falar sério, pessoal. Quanto tempo você ficou na Bahia, Egas?
Egas - Essa história é interessante, porque eu fui para ficar três meses, na casa da avó. Daí eu escrevi uma carta para os meus pais dizendo "Olha, não sei quando eu vou voltar, porque estou muito feliz aqui". Voltei dois anos depois. E mesmo depois de voltar à Campinas eu sempre voltava à Bahia no dia 2 de fevereiro, que é dia de Iemanjá. Eu ia sempre para lá, passava meses...

Bruno - Você pintava muito quando estava na Bahia?
Egas - Muito. Eu fiquei em povoados de pescadores, no Sítio do Conde, quase limite com Aracaju, depois de Alagoinhas. Eu fiquei durante um ano consecutivo, pintando, sem sair de lá, numa aldeia de pescadores onde não morria ninguém. A minha vizinha, Dona Izabé, dizia "venha aqui, meu filho, que estou tomando uma fresca", eu ia lá e ficava pintando ela. Diziam que ela tinha 107 anos, mas eu acho 107 um número fictício, bonito demais pra ser real. Mas ela devia ter mais de 100 anos tranqüilamente. A Dona Izabé serve pra ilustrar como a saúde das pessoas era boa, porque lá não tinha farmácia. Eu nunca me senti tão completo como naquele povoado.

Bruno - Por quê você não ficou lá de uma vez?
Egas - Não sei. Não entendo. Não compreendo. Até hoje não entendo porque estou em Campinas.

Lucas - Valeu a pena ter ficado aqui?
Egas - [Pausa]. Eu gosto de Campinas, mas não há termos de comparação entre Campinas e Salvador. Isso não ofende Campinas, mas poucas cidades se comparam a Salvador, Veneza, Paris, entendeu? É por aí que a Bahia se impôs. É ou não é verdade?

Bruno - O que é que a baiana tem que nós não temos?
Egas - Salvador não é uma cidade, é muito mais do que isso. Lá existe uma cultura real, verdadeira. Lá existe uma gente que você reconhece, de fato. Apesar de todo o esforço da mídia para destruir essa identidade, essa cultura sobrevive. Até hoje, ao menos, parece ter resistido bravamente. Quando eu chego lá é que constato.

Júnior - E o que mais te tocou na cultura baiana?
Egas - O carnaval. Naquela época era carnaval mesmo, não essa porcaria de trio elétrico. Trio elétrico é a morte do carnaval. É a mediocridade instalada. E eu desde aquele tempo, tinha uns 13 anos, gostava de carnaval. Quando eu cheguei na Bahia fiquei encantado com o afoxé, com aqueles cantos, com os atabaques. Eu digo que o carnaval baiano modificou algo dentro de mim - e foi uma mudança decisiva, permanente.

Bruno - A cultura baiana sobreviveu ao trio elétrico?
Egas - Tem resistido. Não sei até quando, mas tem. Não é só no carnaval, não. Hoje em dia vivemos o primado da mediocridade. Você vai à uma exposição onde se escolhe o que é considerado o melhor e mais representativo da arte jovem e vê as coisas menos expressivas, menos verdadeiras, menos sinceras que você poderia ver sendo feitas por jovens. Você quer transformar, debater, polemizar e se depara com as pessoas mais fechadas do mundo, elitistas, egoístas, pedantes. O pedantismo é uma decadência, não é uma evolução.



parte III

O meu primeiro desenho deve ser contemporâneo da minha primeira palavra, da minha primeira mijada .

Lucas – E como você vê Campinas?
Egas –
É uma cidade medíocre como a maioria das cidades. É uma cidade bonita, que teve uma história interessante, que teve a sua glória numa época em que parecia impossível surgir um compositor erudito num país que estava nascendo e, logo aqui, aparece um sujeito chamado Carlos Gomes, um mulato, que chega à Europa e faz um trabalho de altíssimo nível. Mas é só. E depois teve gente como o [compositor erudito] Almeida Prado e a própria [escritora] Hilda Hilst, que também nunca souberam o que estavam fazendo aqui.

Bruno – Mas deve haver um motivo mais forte. Ninguém fica em um lugar sem saber o porquê.
Egas –
Mas é sério, não entendo o que me faz ficar aqui! Eu nunca consegui justificar este fato, nem para mim, nem para ninguém. É como se existisse alguma coisa no ar, alguma coisa que me prendesse a esta cidade. Eu sempre sonhei ficar no Brasil, mas eu achava que ia me fixar na Bahia, em Salvador, nunca em Campinas.

Bruno – Você se localiza como um artista campineiro?
Egas –
Eu não sou artista de lugar nenhum. Não sou artista de Campinas. Eu apenas moro em Campinas.

Bruno – Perguntei isto porque ninguém pintou mais esta cidade do que você. Só para citar uma, dentre tantas obras, aquela maravilhosa Pietá da 13 de Maio .
Egas –
A Pietá, a Gilda, o Lótus, a Hilda ... Olha, eu devo a Campinas a cenografia desta cidade, que aparece em algumas obras representativas. Nesse ponto sim, se tiver que citar o pintor que mais retratou a realidade e a irrealidade, a graça e a desgraça dessa cidade, esse pintor sou eu. A minha pintura está vinculada de fato com a minha vida em Campinas.

Lucas – Você acha que a arte deve ter alguma função política?
Egas –
A função da arte é ser arte mesmo. Agora, eu acho que nada sobrevive sem ser aquilo que é mesmo. Não adianta uma arte panfletária, como a dos mexicanos, por exemplo... Aquilo não me impressiona. Me impressiona muito mais o Tríptico dos Retirantes , do Portinari, como O Menino Morto , que é político também, mas não é panfletário; aquilo foi gestado, é diferente. Aquilo é expressionismo puro. O trabalho do Diego Rivera [pintor mexicano] tem uma composição muito elaborada, muito arquitetada, que ilustra uma revolução. Ele tem o seu valor, lógico. Mas não como obra de arte propriamente dita.

Bruno – Você considera sua arte engajada?
Egas – Engajada na causa do homem, mas sem ser panfletária. Não defendo ideologias. Defendo a humanidade.

Lucas – Você se sente um operário?
Egas –
Eu sou um operário do meu trabalho.

Lucas – Egas, quando você descobriu que queria pintar?
Egas –
Eu nunca descobri que queria pintar, eu simplesmente desenho e pinto desde criança. Fui influenciado diretamente pela minha mãe. Não foi uma decisão racional. Quando dei por mim já estava preso à pintura.

Júnior – Qual foi sua primeira obra?
Egas – Ah, não sei. É a mesma coisa que perguntar qual foi a minha primeira palavra. Como é que eu vou dizer? O meu primeiro desenho deve ser contemporâneo da minha primeira palavra, da minha primeira mijada [risos].


parte IV

Eu acho que ponho na pintura um pouco desta vontade de que a vida das pessoas seja melhor .

Bruno – Você mora aqui no ateliê?
Egas – Eu vivo onde estão minhas telas, minhas tintas. Sempre foi assim. Se eu tenho que viajar, levo as tintas na mala. Se sobrar espaço, eu levo as roupas. Se estiver frio, azar.

Bruno – Você acredita em Deus?
Egas – [Pausa]. Às vezes eu tenho certeza que eu acredito e às vezes eu tenho certeza que não.

Lucas – De que maneira você lida com esse conflito? Ele aparece em sua obra?
Egas – Na minha obra não aparece nenhum tipo de preocupação religiosa. Com o destino do homem, sim. A minha pintura sempre foi ligada ao destino do homem.

Bruno – Pintar pode ser uma maneira de se colocar no lugar de Deus?
Egas – Não sei. Eu gosto muito das pessoas. Eu quero que as coisas dêem certos para elas. Meu pai me criticava muito, dizia que eu era o único filho que não ia à missa, que não freqüentava igreja, que era ateu; mas eu amei mais as pessoas do que os meus próprios irmãos, que eram religiosos. Talvez exista esta relação que você falou. Eu acho que ponho na pintura um pouco desta vontade de que a vida das pessoas seja melhor, menos difícil, menos medíocre.

Bruno – Você pertence à alguma escola de pintura?
Egas – Não sou filiado a nenhuma escola de pintura, nem nunca tive preocupação de pertencer à qualquer movimento. Não tenho nem mesmo preocupação se um quadro meu tem unidade com o outro, porque eu sei que tem.

Lucas – Qual seu pintor preferido?
Egas – É impossível ter um pintor preferido. Mas há pintores que em todas as listas devem constar, como Vincent Van Gogh, onde a pintura e a vida coincidem, onde a tragédia pessoal e a vida contida no trabalho fazem com que a obra tremule às suas costas, fazem com que você sinta a presença do quadro mesmo sem vê-lo; isto é uma coisa que poucos artistas conseguem. E também tivemos Picasso, Mogliani, Kandinsky, que fizeram parte da última geração de grandes pintores.

Lucas – Você coloca Cândido Portinari entre os grandes?
Egas – Portinari...Quando vi pela primeira vez o Tríptico dos Retirantes , que para mim é a obra-prima da pintura brasileira, eu era criança e fiquei com medo, aquilo teve um grande impacto na minha vida.

Bruno – Qual era a orientação política da sua família?
Egas – Na minha família tinha gente de todos os lados. Tinha os burgueses e os marginais, os legais e os chatos. Os meus primos baianos eram burguesíssimos. O burguês baiano é mais burguês do que os outros [risos]. E nós éramos os desleixados, os que não sabiam se vestir, os que não tinham vida social.

Bruno – Você está dizendo que se seus pais estivessem vivos eles não sairiam na coluna social.
Egas – Nós nunca demos valor ás festas da sociedade. Nem minha mãe, que era tida como a mulher mais bonita da cidade. Todo mundo queria que meu pai levasse a minha mãe aos eventos, mas ela não queria. Ela só ia ao teatro, ela conhecia de perto as atrizes, a Tônia [Carrero], o Paulo Autran, a Fernanda [Montenegro]. Minha mãe não era fútil, era culta.



parte V

A música talvez seja a arte mais rica que existe. Sobretudo no Brasil.

Lucas - Egas, eu vejo muita música nos seus quadros. Ou estou enganado? Egas - Vocês ainda não me viram ouvindo música porque hoje é sábado e eu não quero acordar os vizinhos. Eu ouço música o tempo todo.

Bruno - O que você ouve quando está pintando?
Egas - Ouço muita música erudita, jazz, blues, Elza Soares, Elis Regina, não tenho preconceito. A música talvez seja a arte mais rica que existe. Sobretudo no Brasil. A música é a arte do brasileiro. A música popular brasileira, na minha opinião, é a melhor música popular do mundo. E a pior também. A pior é a que eles divulgam, a melhor é a que nós fazemos.

Lucas - Você, como artista brasileiro que viajou bastante, sente que a nossa música tem uma maior aceitação lá fora do que aqui dentro?
Egas - A mídia vende uma imagem falsa para eles também. Mídia é igual em qualquer parte do mundo. Quando eu fui para a Europa, a Timbalada estava na moda. Eu estava na Holanda e caí numa festa onde estavam tocando Timbalada. Vieram falar comigo: "Egas, estão tocando música brasileira em tua homenagem". E eu tive que responder: "Vocês me desculpem, mas isto não é música brasileira; se vocês quiserem eu posso mostrar o que é música brasileira, eu trouxe uns discos, posso mostrar para vocês". Tinha um piano na casa e pedi para uma amiga minha tocar que eu ia cantar música brasileira.

Júnior - E o que você cantou?
Egas - Cantei Ary Barroso, alguma coisa do Chico [Buarque], do Tom [Jobim], do Caetano [Veloso]. Eu não me lembro exatamente o quê. Cantei também umas coisas antigas, para mostrar que se tratava de uma música que tinha raiz. Me lembro que cantei Azulão , do Heckel Tavares.

Lucas - Como você vê discurso da globalização, que impõe o modelo pop - não só na música, mas nas artes em geral -, como a única possibilidade de se fazer uma arte "jovem" e "moderna"?
Egas - Isto começou com Andy Warhol, que não era artista porra nenhuma. Ele era um homem muito inteligente, muito contestador, isso sim. Mas estava longe de ser um artista e, sobretudo, de ser um desenhista. Aliás nunca vi alguém desenhar tão mal. Eu posso falar porque eu desenho bem. Acontece que uma arte deve ter preservada a sua raiz, a sua identidade, porque senão vira só um produto. Um sabonete. Uma caixa de sopa.

Lucas - Arte se aprende arte na universidade?
Egas - Não, ninguém aprende arte na escola. Você pode desenvolver as suas qualidades se você for bem orientado por pessoas competentes que saibam respeitar os seus sinais.

Lucas - Você não tem curso superior?
Egas - Eu não. Nunca me fez falta. Você me mostra um fragmento de um quadro de um pintor de determinada época e eu sei te dizer que quadro é aquele. Só pelo detalhe eu posso te dizer se aquilo é Monet, se é Kandinsky, se é Picasso.

Bruno - De que maneira as outras artes, como a música e a poesia, estão presentes na sua pintura?
Egas - As artes estão todas coligadas. A pintura, a música, a poesia - que está na essência de todas as artes; mas, ao mesmo tempo, vejo uma tendência de negar tudo isso. Ou seja, se você nega o conteúdo poético da arte, de qualquer arte, fica muito difícil você realizar alguma coisa que tenha verdade, que tenha valor como arte. Você está recusando uma qualidade que é imprescindível para que ela seja arte de fato.

Bruno - Você não realiza muitas exposições porque não gosta ou porque é difícil realizar exposições em Campinas?
Egas - É difícil, rapaz. A última [ no Museu de Arte Contemporânea de Campinas, em 2002 ] foi uma exposição bem montada, com um catálogo bem elaborado, fiquei muito grato porque finalmente a Prefeitura fez uma exposição onde eu consegui mostrar o meu trabalho em toda sua dimensão. Tive um espaço condizente com a quadratura dos meus quadros, a cromatização, a distancia permitia que o observador se posicionasse, enfim, deu para montar uma exposição razoável. Mas eu fiquei frustrado com o tempo que ela permaneceu lá. Ficou um mês e pouco. Uma exposição daquela era para ficar no mínimo três meses. Trabalhos inferiores aos meus ficaram muito mais tempo. Daí as pessoas falam que eu sou pedante; mas eu não sou pedante, sou convencido. É muito diferente. Sou convencido pelo fato de viver o meu trabalho todos os dias.

 



parte VI

Quem não gosta de vinho não merece muita consideração .

Bruno – Qual a extensão da sua obra?
Egas – Não sei. Só aqui dentro tem mais de 400 telas. Mas eu tenho muito mais do que isso. Aqui comigo tenho os trabalhos mais recentes, feitos nos últimos cinco ou seis anos.

Bruno – Aqui não tem mais lugar para nada, Egas. Você já tentou conseguir um espaço melhor para preservar estas obras?
Egas – Já tentei, mas nunca me deram atenção.

Bruno – A Prefeitura nunca lhe deu atenção?
Egas – Deu atenção em termos. O Valter Pomar [ Secretário de Cultura de Campinas ] esteve aqui, conversamos sobre o assunto, mas nada aconteceu. Eu estava pleiteando um barracão da Fepasa [ estação de trem desativada, hoje centro cultural ], ele chegou a ser até escolhido. Esse barracão seria restaurado e ali se instalaria uma fundação em meu nome, com meus trabalhos, mediante a doação de algumas obras para a comunidade. A minha grande preocupação é a preservação do meu trabalho.

Bruno – O que vai acontecer com os seus trabalhos quando você morrer? Egas – Muitos artistas morreram antes de deixar uma obra extensa, mas eu estou vivo. Tenho conseguido, pelo menos. Esse negócio de falar que eu ainda vou viver muito, é bobagem. Ninguém sabe quando vai morrer. Se eu morrer amanhã, não sei o que vai acontecer com tudo isto. Talvez fique aqui, apodrecendo. Por isso eu acho que deveria ter um espaço digno enquanto ainda estou vivo e produzindo.

Bruno – Você bebe, Egas?
Egas – Eu gosto muito de vinho. Eu acho que quem não gosta de vinho não merece muita consideração [risos].

Lucas – Você gosta de beber para pintar?
Egas – Não, nunca. Se eu estiver com um espírito de Goya na cabeça eu posso até tomar um pouquinho, mas prefiro pintar sóbrio.

Lucas – Drogas então, nem pensar, né?
Egas – Não, esse negócio não. Eu gosto do cheirinho da tinta mesmo [risos].

Júnior – E os bares, Egas? Você freqüenta?
Egas – Não gosto desse pessoal que fica tomando cervejinha no bar e falando bobagem. Eu gosto de bar que tem música, onde o cara está com o violão num canto, sabe? Eu gosto de bar boêmio, de boteco. Detesto lanchonete, adoro boteco. Não gosto de butique. Detesto shopping-center. Aliás, odeio.

Bruno – Quais são os melhores botecos da cidade?
Egas – Eu adoro o City Bar. Porque ali é fácil de você encontrar alguém e mais fácil de você escapar de alguém [risos]. É terrível você agüentar o bafo do bebum em cima de você, ele chega no teu cangote, te segura pelo braço, o carinho dele é demais [risos]. A intenção é a melhor possível, ele não é maldoso. O problema é que ele é chato. Todo o bêbado tem uma boa alma. Haja vista que o melhor exemplo que nós temos no Brasil foi o Vinícius de Moraes [risos].



parte VII

Nós fomos levados para o Dops e interrogados. E aí eu vi que eles tinham um material sobre mim.

Bruno - Como era Campinas na época da ditadura? Você enfrentou algum problema?
Egas - Enfrentei sim. Eu trabalhava com criança naquela época. Eu dava um curso de pintura infantil no Centro de Ciências, Letras e Artes. Hoje o Centro de Ciências é um asilo, de tanto velho sem nada para fazer. Mas naquele tempo era freqüentado por intelectuais e jovens artistas. E eu praticamente fui educado no CCLA, onde tive a oportunidade de conhecer a Maria Luiza Pinto de Moura, a maior bibliotecária que eu conheci em toda a minha vida e uma das pessoas mais importantes da história de Campinas. Lá tive o privilégio de ouvir o piano de Madalena Tagliaferro, de Heleninha Lobo, grandes violinistas, palestras de gente importantíssima...

Lucas - E os problemas com a ditadura?
Egas - Eu tive problemas sérios com a ditadura quando trabalhava no CCLA, mas não foi por causa das reuniões políticas. Quer dizer, a gente se arriscava, fazia reuniões no Bosque dos Jequitibás e, quando um de nós assobiava feito um determinado passarinho, todo mundo saía em disparada, era cada um para um lado. Mas não foi por isso. Mas porque eu dava aula para engraxates, por conta do curso de pintura infantil do Centro de Ciências.

Bruno - Mas qual era o problema com o curso? Você dava aula de guerrilha urbana para os engraxates?
Egas - [risos]. As aulas eram feitas no Largo do Rosário, onde os engraxates trabalhavam. Naquela época, engraxate era profissão de menor ou de deficiente. Eu dava aulas ao ar livre para estes meninos e para a ditadura isto era uma atividade política. E não deixava de ser. Muitas vezes eles cercaram a praça, prenderam crianças, prenderam meninos. Era para me intimidar. E uma vez, em São Paulo, a Policia Civil - que era conivente com a Polícia Militar -, me pegou. Eu estava na Praça Tiradentes, fotografando uns muros pixados, e fui preso. Eu e a Amélia Maia Verdum, que era estudante de medicina da Unicamp. Nós fomos levados para o Dops e interrogados. E aí eu vi que eles tinham um material sobre mim que eu fiquei bobo de ver. Eles já tinham filmado as minhas aulas, enfim, eles tinham um material que eu nem suspeitava.

Lucas - E o que eles quiseram saber? Se você tinha ligação com algum grupo armado?
Egas - Eles não queriam que eu continuasse com aquele processo de alfabetização. Agora, se os meninos não sabiam nem assinar o nome, é claro que eu ia ensiná-los. Eu ensinei um menino cego a pegar ônibus sozinho e até isso era considerado subversivo. Então, não tinha outro jeito mesmo.

Júnior - E como foi esse interrogatório? Houve alguma violência?
Egas - Violência física não. O interrogatório foi rápido, não demorou muito, não. Nós fomos conduzidos para uma salinha e eles nos interrogaram durante uma hora, mais ou menos. O meu irmão, que era monge beneditino, teve problemas muito mais sérios, ele tinha a cabeça a prêmio, foi outra história. Ele tinha um apartamento fora do mosteiro de São Bento que era um aparelho. Ele era da luta armada, só não foi morto porque pertencia à Ordem Beneditina. Muitos amigos nossos foram eliminados. Eu nem gosto de lembrar.

 



parte VIII

Não tenham dúvida de que estão esperando a primeira oportunidade para dar um golpe.

Lucas - Como você vê a chegada do Lula no poder?
Egas - Eu vejo com muita simpatia, porque pela primeira vez eu elegi alguém. Eu nunca havia elegido ninguém [risos]. Meus candidatos sempre levaram a pior. Graças a deus essa responsabilidade eu não carrego, nunca votei em fernandinho nenhum. Agora, acho que as pessoas cobram do Lula coisas que ele não pode fazer. A situação que ele encontrou é de desordem total, eu não queria estar na pele dele, jamais. Agora, eu acho que o povo tem que participar de fato. Discutir, contestar, mas de um modo lúcido. Não com partidarismo, com paixões. Porque o pessoal da direita, esse pessoal reacionário que tem um medo terrível de perder os seus bens, tem horror ao Lula. Então ficam fiscalizando o governo de uma maneira infantil, como se por esse meio eles pudessem derrubar o Lula; existe essa intenção por trás disso tudo: derrubar o Lula. Não tenham dúvida de que estão esperando a primeira oportunidade para dar um golpe. É a primeira vez que um representante do povo está no poder, nós temos de levar isto em conta.

Bruno - E em Campinas, como você analisa a gestão do PT?
Egas - O único candidato em quem eu acreditei a minha vida inteira, desde que eu o conheci, que foi o Toninho [ Antônio da Costa Santos, prefeito assassinado em 2002 ], a cidade matou. Eu era muito amigo do Toninho. Eu acreditava nele. Era o único político dentro de Campinas com condições reais de administrar essa cidade de um modo digno. Ele era muito corajoso e por isso ele foi eliminado.

Bruno - Eliminado mesmo?
Egas - Ah, claro que foi. Ele foi eliminado sim. Essa história que se inventa, esse enredo paralelo, é mais um ato de covardia dessa elite. O que se vende hoje para a gente é: "Não mexa com os bandidos, não reaja". O povo é orientado a não reagir. Eu tenho certeza que o Toninho foi eliminado por razões políticas. Mas dizem que não podemos reagir...

Bruno - O desaparecimento de Toninho coloca uma lacuna no processo de desenvolvimento até mesmo da mentalidade dessa sociedade campineira? Egas - Você não tenha dúvidas disso. Hoje, o que está colocado para nós? Antes do Toninho tivemos alguns bons prefeitos, mas nenhum com a cultura, a coragem e a competência dele. Ele reunia as principais virtudes que pode ter um homem público. Campinas perdeu sua única saída. O próximo prefeito irá governar com este peso nas costas. Acabou-se. Fim.

 



parte IX

Eu acho que o Brasil tem uma dívida para comigo. Artistas medíocres têm muito mais evidência neste país.

Lucas – O que você mais gosta e menos gosta em Campinas?
Egas – O que eu mais gosto é das pessoas. E o que eu menos gosto é da mediocridade.

Bruno – Mas as pessoas não são medíocres?
Egas – Mas às vezes elas são vitimas de uma mediocridade imposta por uma máquina muito poderosa.

Bruno – Que máquina é esta?
Egas – Tudo está a serviço da mediocridade. A moda. A mídia. A influência norte-americana. O modelo que vem de fora e que nos atrapalha tanto. O Brasil tem tanto para tirar da terra, mas se rende ao importado. Até o conceito de belo. Tudo tem que ser “modernoso”. Hoje uma obra para ser considerada arte pelos ditos competentes, que são os curadores, os críticos, seja lá o que for, ela tem que ser condizente com um discurso que corresponda ao que foi elaborado lá fora. E isso acontece em tudo: na pintura, no cinema, na música...

Bruno – Você acha que um critico nunca pode dizer se uma obra de arte é melhor do que a outra?
Egas – Eu acho que existe o que é pior e o que é melhor. Existe. A arte não depende de nossa opinião. Uma laranja saudável não faz mal, mas uma laranja podre pode matar. E uma laranja verde é ácida.

Lucas – Você acha que não existe relação entre gosto e qualidade.
Egas – Não. E arte não tem nada a ver com gosto. O bom gosto é o maior inimigo da arte. O chamado bom gosto da sociedade é o maior mau gosto que pode existir.

Bruno – Campinas é uma cidade presa ao bom gosto?
Egas – Muito “decô” para o meu gosto [risos].

Júnior – Você se acha incompreendido?
Egas – O artista, mas o artista mesmo, será sempre incompreendido. A arte não é feita para ser compreendida, mas sentida, assimilada, digerida.

Lucas – Você sente mágoa de Campinas?
Egas – Não. De Campinas propriamente não. Do Brasil, um pouco.

Bruno – Mesmo que você morasse em Salvador sustentaria essa opinião? Egas – Sim. Eu acho que o Brasil tem uma dívida para comigo. Artistas medíocres têm muito mais evidência neste país. Na Europa eu sou muito mais respeitado do que no Brasil. Muito mais. Sobretudo na Alemanha e na Itália.

Bruno – Você tem alguma exposição permanente nestes países?
Egas – Não, mas eu vou fazer a sétima [exposição] individual, na Alemanha. Na Itália eu morei um ano. Nesse período participei de seis individuais e catorze coletivas. Na Espanha eu fui contemplado com a medalha Garcia Lorca. Aqui, nada.

 



parte X

O caixão dela era branco, ao lado havia uns caras com roupa de cavaleiro medieval, uns penachos horrorosos no capacete.

Lucas - Você gosta mais de você ou do que você faz?
Egas - [Pausa]. Às vezes eu acho que eu judio muito de mim. É uma pergunta difícil de responder.

Bruno - A vida ou a obra?
Egas - Eu nunca desvinculei uma coisa da outra. Eu vivo diariamente a minha pintura. Como as pessoas comem, eu pinto. Eu como muito menos do que pinto.

Lucas - Egas, você pinta como eu pinto?
Egas - [risos] Você quer tentar a sorte? Vou te mostrar o meu pincel.

Bruno - Como você recebeu a notícia da morte da Hilda Hilst, de quem era muito próximo?
Egas - A Hilda foi a maior escritora que eu conheci na minha vida. Foi uma grande, uma enorme perda para o Brasil.

Bruno - Você foi ao enterro?
Egas - Eu entrei e saí no velório da Hilda. Eu tenho horror a isso. Foi uma hipocrisia, o caixão dela era branco, ao lado havia uns caras com roupa de cavaleiro medieval, uns penachos horrorosos no capacete . Pra começo de conversa o caixão da Hilda tinha de ser roxo, vermelho. Aquilo o que fizeram não teve nada a ver. Ninguém entendeu nada, estava todo mundo ali querendo sair no jornal, as pessoas não entendem, não entendem...

Bruno - Você lida bem com a perda?
Egas - Não. No período de um ano eu perdi minha mãe, meu irmão, minha cunhada e logo depois a Hilda, tudo na mesma época. Para mim é muito difícil falar sobre isso.

Lucas - Como é tua relação com a morte?
Egas - Esteve aqui o Frei Bruno, um tradutor fenomenal, e ele disse sobre os meus quadros: "Interessante, todos os seus quadros são sobre a vida e a morte". E eu sempre achei isto. Aquele quadro ali se chama A Vida e a Morte . São temas muito presentes no que eu faço.

Bruno - Você tem medo da morte?
Egas - Não. Eu tenho medo é do sofrimento. O que dói é a separação, você saber que não vai mais ver a pessoa que você ama. O maior inimigo da morte é o amor.

Bruno - Você superou a morte de sua mãe? Na época ouvi boatos de que você até cogitou parar de pintar...
Egas - Eu era muito ligado a minha mãe. Mas não pararia de pintar. Isso não. Quando ela morreu, eu fiz um quadro para ela, Retrato de Minha Mãe . Tenho a sensação de tê-la presente quando observo este quadro. Chega a ser mórbido. Como aquele cara que conserva a mãe mumificada dentro de casa, sabe?

Lucas - E essa foto da Mercedes Sosa no banheiro?
Egas - A minha grande amiga... Quem me apresentou à ela foi a Violeta, prima do [Geraldo] Vandré. Um dia ele veio para Campinas e me ligou, dizendo que ia visitar o meu ateliê. Ela veio de táxi. E o taxista, por sorte um universitário que conhecia as músicas dela, quando percebeu que estava conduzindo a Mercedes, desligou o taxímetro e falou para ela: "Você pode ficar o dia inteiro aí". Ela entrou, viu a mangueira através da janela e disse que lá na Argentina ter uma árvore no quintal é a coisa mais difícil do mundo. Ela é muito sensível, é uma pessoa que para escorrer uma lágrima não precisa muita coisa.

Júnior - Você mantém contato com ela?
Egas - Mantínhamos muito contato, mas, ultimamente, ando chateado comigo. É uma falha minha, eu não telefono para as pessoas. Às vezes eu penso muito na pessoa, me iludo imaginando que a pessoa também pensa em mim e acabo não procurando. A pintura me afasta muito das pessoas.



parte XI

As fotos da Ingrid Bergman forravam as paredes do meu quarto .

Bruno - Você vive mais a ficção ou a realidade?
Egas - Eu não sei mais o que é uma coisa e o que é outra. Às vezes eu penso que quando você se propõe a fazer ficção, você tem que estar muito mais próximo da realidade do que do sonho. A realidade e a ficção se fundem a todo momento, basta um pouco de atenção e sensibilidade para perceber isto.

Lucas - Você pinta muito as atrizes clássicas. Fale um pouco sobre a sua paixão pelo cinema.
Egas - Eu fui criado no cinema. Eu tenho meus mitos. Quando criança eu já assistia os filmes do pós-guerra; enquanto os meus amigos iam ao cinema ver musicais americanos, eu gostava dos filmes dramáticos, dos italianos. De Vittorio De Sica, de [Roberto] Rosselini, de [Píer Paolo] Pasolini. Do [Federico] Fellini eu assisti praticamente todos.

Lucas - E as mulheres...
Egas - As fotos da Ingrid Bergman forravam as paredes do meu quarto . Ava Gardner foi a mulher mais linda do cinema. A Tônia Carreiro, das nacionais. Quando eu era menino ela fez um filme, Tico-Tico no Fubá , e eu fiquei apaixonado. Ela era linda, maravilhosa. Tinha uma cena dela subindo uma ladeira de costas, eu nunca esqueci; ela ia subindo, de repente virava com aquele rosto... eu nunca esqueci. Minha primeira paixão no cinema foi a Tônia. Depois eu descobri a Fernanda [Montenegro], no Rio. Quando eu ganhei o Prêmio Revelação do Ano, nos anos 60, eu tinha 21 anos, tinha acabado de assistir A Falecida e fiquei impressionado. Daí eu comecei a acompanhar a Fernanda pelos teatros da vida. Ia ao Rio só para vê-la. Sou apaixonado por ela até hoje.

Júnior - Ela comprou um quadro teu, não é?
Egas - É, ela tem um quadro meu na casa dela. Eu fiz três quadros para ela, um deles fiz sentado na platéia, enquanto ela atuava. Um dos quadros tem dois climas: um é a ansiedade e o outro é a agressividade. Ela está bebendo uísque, mas se você muda o quadro de posição ela joga o uísque na tua cara.

Bruno - Você admira alguma atriz da nova geração?
Egas - A Cláudia Abreu é atriz pra caralho. Só que ela cai na televisão e ganha um papelzinho de novela. Eu fico puto com isso. E ela ainda por cima dá o azar de ser bonita. Fica marcada. E o Brasil perde mais um talento.

Bruno - Egas, eu queria te perguntar uma coisa complicada. Como você define "arte"?
Egas - Minha definição de arte pode ser dada pelo testemunho da minha vida, que é o meu trabalho. Eu acho que as pessoas podem concluir o que eu penso sobre arte, talvez com mais facilidade do que eu mesmo, através das pinturas que eu deixo. Agora, fundamentalmente, acho que a arte está em quase todas as coisas. A arte está onde aparentemente não se vê. E o artista é aquele que vê a arte, que percebe a arte e é capaz de traduzir, através da pintura, da música ou da poesia, essa impressão diante do mundo.

Bruno - Egas, você é de natureza rebelde ou de natureza serena?
Egas - As pessoas que me conhecem mal me consideram sereno. Mas eu sou rebelde.

 


 

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