
Sábado, 10h. Diante da casa sem luxos, localizada na rua Marcondes Salgado, pelo vão de uma janela quebrada, gritamos o nome do pintor Egas Francisco. Ele demora um pouco para abrir a porta - nós o acordamos, embora ele negue, educadamente. Nos convida a entrar, mascando uma escova de dentes. Veste um pijama azul.
Temos de tomar cuidado para não pisar nas bisnagas de tinta e nos pincéis espalhados pelo chão. O trajeto até a cozinha seria curto não fosse a quantidade de telas no caminho. São mais de quatrocentas e temos de tomar cuidado para não esbarrar em nenhuma obra-prima. Dentre as telas há algumas que poderiam deixar rico o seu criador - se neste país houvesse comprador para elas.
A casa é pequena para o ritmo em que Egas produz e não tem estrutura para comportar tanta criatividade. Sua maior queixa é sobre a falta de um espaço maior e adaptado, onde sua produção pudesse estar sã e salva. Demonstra certa mágoa do Brasil, mas evita condenar Campinas pelo relativo isolamento em que vive hoje. Ama esta cidade como poucos, mas mantém com ela uma relação masoquista de amor e ódio - mistura de raiva e tesão. O artista não consegue romper o laço invisível que o prende à terra das andorinhas. Ele vive onde trabalha. Sozinho. Guarda todas as energias para a pintura. Não há quase móveis na casa. A cozinha é simples: uma pia, um calendário de parede, uma mesinha, algumas cadeiras e um fogão, onde ele prepara café preto.
Tomamos o café da manhã com o maior artista vivo de Campinas - o gênio que consegue ser tão simples quanto vaidoso. Tudo em Egas Francisco é simples, mas profundo; e quem disse que a simplicidade é simples? O nome mais importante da pintura campineira em todos os tempos leva uma vida comum, sem extravagâncias, dividida entre aulas de pintura para crianças carentes, palestras para estudantes e uma intensa produção artística, que lhe consome boa parte do dia. Dorme pouco, come menos ainda, é capaz de usar a mesma roupa por vários dias, não vai à festas e gosta de andar a pé. Zomba da solidão que criaram para ele - na verdade é um falso recluso. Quando sai para comer um bife à cavalo no City Bar, acompanhado de uma taça de vinho tinto - sua bebida preferida -, é reconhecido nas ruas. Seus amigos estão todos nos botequins. A burguesia campineira não consegue entender a sua obra - diz o próprio pintor - porque não caminha na rua, junto ao povo. A obra de Egas está sempre ao lado do povo.
A entrevista se estende até o meio-dia. Egas não aceita o convite para almoçar no Bar do Cação. Ele nos dá um abraço carregado de afeto, fita uma tela vazia como se olhasse através dela e se justifica, dizendo: - Preciso pintar dentro de meia hora; é urgente!
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