Alguns filósofos, em contraponto aos médicos cardiovasculares, defendem a idéia de que a vida dura apenas um dia. O amanhã, portanto, é um conceito muito longe, não existe. A busca do prazer, para alguns pensadores honrados, seria o motor que manteria em funcionamento a sociedade, independente dos riscos que os prazeres acarretam. Há quem prefira se privar da carne vermelha e do alcool, de modo a garantir mais dez anos de lambuja na universidade da vida. Há, porém, quem não se preocupe muito em participar da festa de formatura - até porque terno é o que todo mundo costuma vestir no último dia de aula sobre a Terra. A equipe do Cumbuca, hedonista por natureza, é formada por irresponsáveis glutões e beberrões, desses que deixam médicos e pastores evangélicos pra lá de invocados. E se rende, de joelhos, à tentação da carne. Perdoai-nos, pai, porque sabemos o que estamos fazendo! Seguindo o ritual mensal que mantém vivo e gordo este irresponsável site - atenção leitores em dieta, não sigam adiante na leitura! - visitamos o Rei do Joelho, do nosso amigo Valmir Bellotti. Localizado na rua Oswaldo Cruz, o boteco quase sempre está tão lotado quanto os spas. Para provar o famoso joelho de porco do lugar, há quem venha de fora. Nós já ouvíamos falar das iguarias servidas na casa, mas demoramos a visitar o bar porque tivemos de nos preparar psicologicamente para enfrentar o desafio: passar uma tarde saboreando tudo o que pudesse aumentar o nosso colesterol. Para a empreitada convidamos o Dr. Drauzio Varella, mas ele recusou-se depois de acessar o Cumbuca. "Vocês são casos perdidos", escreveu. Recorremos, então, ao apoio espiritual do Seu Zé Pelintra, localizado na prateleira acima do balcão. Nada do que uma dose de cachaça e um cigarrinho não resolvam. Velando por nossos fígados e estômagos, lá esteve, firme, o guardião das curvas, o senhor das demandas, o exu tranca-rua. Vale tanto quanto Engov e custa mais barato. Valmir nos recepciona com uma mesa na calçada e uma salada de batatas, salsichões alemães com mostarda preta e uma acelga com alho frito capaz de sensibilizar até mesmo o mais radical dos saudáveis. Acompanhados de nossas patroas, também irresponsáveis e filosoficamente aptas à boemia, não tivemos muito tempo para conversar. Lá veio o alemão trazendo o precioso joelho, ainda fumengando na chapa quente. O que aconteceu depois, nem Freud explica. Nem a Nara Leão poderia causar tanto frisson com aquela cruzada de pernas. "Joelho como o do Valmir ainda está para nascer", alguém deixou escapar, correndo o risco de parecer afetado demais. Lá pelas tantas, veio a tristeza. Tudo acabado entre nós. Incluindo aí o fígado, que ficou parecendo o Bob Esponja. Fomos todos, disputar a tapa, um lugar na fila do banheiro. Para tirar água do joelho, é claro. Atenção: o bar não é recomendado para pessoas que não podem sofrer emoções fortes ou estão levando a sério o regime da lua.


Perdoai-nos pai!
E que venha o joelho