O armazém é o princípio de tudo. Quando os portugueses aqui chegaram, foram logo instalando suas vendinhas, comercializando seus vinhos e "bacalhais" (com o seu perdão, Walter Alfaiate). Nestes mercadinhos de secos e molhados é que o pessoal se reunia no final de tarde, para sentar numa caixa de uva vazia e entornar umas e outras. Valia falar mal do governo, do time do Vasco ou arrumar um ombro amigo para chorar um amor terminado. Os mercados estão presentes na gênese do botequim.
Esta foi nossa primeira impressão ao entrar no mercado campineiro, com seus azulejos centenários e seu jeitão de coisa parada no tempo: a impressão de que o Nosso Bar, que ainda não tem um ano de vida, sempre esteve ali. Ou melhor: a impressão que o botequim do Maurício é anterior à criação do universo.
Com certeza o ébrio leitor sabe o que é passar por um deja vú. Subitamente ter a sensação de já ter visto determinada pessoa ou lugar na vida. Assim foi e será com o botequim que encontramos no coração do mercado. E bota coração pra agüentar tanto colesterol. Indizível é o prazer de abocanhar um pão com mortadela, parecido com o que se come no mercado de São Paulo. E saborear um chope gelado com dois dedos de colarinho. Apoiado no balcão, lógico. Aliás, o bar, em si, é um enorme e democrático balcão.
Enumeramos as três principais: a) ninguém te acha, visto que quando o mercado desce as portas, ninguém entra e só sai com senha - ótimo para quem quer se esconder de cobrador, patrão e ex-mulher; b) o Maurício nunca nega uma saideira; c) tem sempre alguém bom de papo escorado no balcão.
E pra finalizar registre-se que o dono do botequim, chef com especialização em Madri e Buenos Aires, bebe junto com os clientes, enquanto os que comem se esbaldam com o "trivial" pato com laranja, servido uma vez por semana na casa. Pra impressionar a namorada, leve-a para tomar uma legítima Moet & Chandom. Isso mesmo. Champanhe francesa no mercado velho. Mas essa o Maurício não pendura. E também não bebe junto, que não é bobo nem nada.

Sanduíche de Mortadela
Maurício nos recebe sempre muito bem. Bota um CD do Moacyr Luz e corre pra chapa - lá vem aquele filé acebolado com pãozinho molhado no azeite e pimenta de procedência suspeita. Só quem bebeu ladeado por sacos de arroz e vassouras piaçava pode saber o que é a prática da beberagem dentro de um armazém.
Depois das seis o mercado campineiro desce as portas, mas continuamos lá dentro. O bar do Maurício, feito o Bar Esperança, é o último que fecha. A beberagem não pode parar. Quando os amigos músicos dão a cara vai todo mundo pro andar superior, pra não incomodar nem os fantasmas com aquele repertório que as rádios não tocam.
Impossível mesmo é passar pelo Nosso Bar e não virar freguês. A equipe do Cumbuca, assim como Jaguar, confessa que bebeu inúmeras abrideiras por ali, antes de cair na farra. As vantagens de começar a noite por ali são várias.

Maurício
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